26 de novembro de 2008

LER

Carlos Edu Bernardes

Tudo começou por volta do meu segundo dia de vida. Consegui ler: "Berço 3". Depois, ao ser levado ao quarto onde mamãe estava, li no peito (que peito!) da enfermeira no crachá: "Deise Albuquerque - Enfermeira".

Ao chegarmos na porta do quarto lá estava uma botinha de lã pendurada com um papelzinho:"Carlos Eduardo chegou!".

Depois, noutros braços, li nos olhos da mulher que me segurava a poesia mais linda gravada na retina de quem acabava de ser mãe pela primeira vez. Ela é intraduzível. Olhe nos olhos de sua mãe para relembrá-la.

Ao lado de flores e bombons consegui vislumbrar um pequeno lembrete embaixo de algumas pétalas: "Obrigado por me dar um companheiro. Você, cada dia mais linda, já precisa de dois homens para protegê-la. Nasceu meu filho, renasci pai".

Depois fui lendo sem parar e descobri que se podia escrever com lápis-de-cor também. Li bulas de remédios e contas de armazém. Cebolinha, Mônica, Homem-Aranha e Tex. Batman, Mandrake, Fantasma, Bolota, Brotoeja, Gasparzinho, Brasinha, Senhora de José de Alencar, Éramos Seis de Dupret, O Escaravelho do Diabo, Os Meninos Da Rua Paulo, Dom Casmurro, Playboy, Ele & Ela, O Alquimista (confesso...), toda a coleção de Carlos Castañeda, O Nome da Rosa, O Pêndulo de Foucault, e tantas outras coisas, tantas outras coisas, tantas outras coisas... Carlos Drummond, Ferreira Gullar, Leminski, Charles Baudalaire, Al-Chaer, Yêda Schmaltz...