20 de outubro de 2008

REFLEXÃO SOBRE A PERCEPÇÃO DE VALOR INTRÍNSECO

Direto da rede caótica:

Aquela poderia ser mais uma manhã como outra qualquer. Eis que o sujeito desce na estação do metrô. Vestindo jeans, camiseta e boné, encosta-se próximo à entrada, tira o violino da caixa e começa a tocar com entusiasmo para a multidão que passa por ali, bem na hora do rush matinal.

Mesmo assim, durante os 45 minutos que tocou, foi praticamente ignorado pelos passantes. Ninguém sabia, mas o músico era Joshua Bell, um dos maiores violinistas do mundo, executando peças musicais consagradas num instrumento raríssimo, um Stradivarius de 1713, estimado em mais de 3 milhões de dólares.

Alguns dias antes Bell havia tocado no Symphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custam a bagatela de 1000 dólares.

A experiência, gravada em vídeo, mostra homens e mulheres de andar ligeiro, copo de café na mão, celular no ouvido, crachá balançando no pescoço, indiferentes ao som do violino. A iniciativa realizada pelo jornal The Washington Post era a de lançar um debate sobre valor, contexto e arte.

A conclusão: estamos acostumados a dar valor às coisas quando estão num contexto. Bell era uma obra de arte sem moldura. Um artefato de luxo sem etiqueta de grife.

Esse é um exemplo daquelas tantas situações que acontecem em nossas vidas que são únicas, singulares, e a que não damos a menor bola porque não vêm com a etiqueta de seu preço. O que tem valor real para nós, independentemente de marcas, preços e grifes? É o que o mercado diz que você deve ter, sentir, vestir ou ser?

Essa experiência mostra como na sociedade em que vivemos os nossos sentimentos e a nossa apreciação de beleza são manipulados pelo mercado, pela mídia, e pelas instituições que detém o poder financeiro.

Mostra-nos
como estamos condicionados a nos mover quando estamos no meio do rebanho. Verdadeiros seguidores da flauta de Hamelin do sistema.

VÍTIMAS DO MERCADO

Marta Vitória de Alencar *

Você já parou para pensar por que inúmeras vezes desejamos algum objeto que não é essencial para a nossa vida? A filosofia pode ajudá-lo a entender. Trata-se de um desejo permanentemente alimentado pela indústria e pelo mercado que necessitam de consumidores para sobreviver, segundo Karl Marx (1818 - 1883), filósofo e economista que produziu uma teoria para explicar a gênese do capitalismo. Para Marx, estabelecemos com os produtos fabricados no sistema capitalista uma relação que ele chama de fetichismo da mercadoria.

Vamos entender como é isso: imagine que sou um operário e vendo minha força de trabalho para o dono da fábrica, o capitalista. Transfiro para ele a propriedade do produto de meu trabalho. O valor dos objetos que produzo é superior ao que recebo como salário. Mas eu não tenho uma real dimensão de quanto valor produzi, porque o processo é alienante: o produto de meu trabalho não me pertence e, por isso, não me reconheço nele. O que é reforçado pela fragmentação da produção: só executo um componente do produto. Suponhamos que trabalho numa fábrica de chip de celulares. O que ocorre quando vou comprar um desses aparelhos é a discrepância entre o que a loja cobra por ele e o que posso pagar, além de um sentimento de frustração e impotência.

Não temos plena consciência disso, mas, no fundo, essa situação desperta a crença de que o celular vale mais do que nós. Não sei como nem por quê, mas o celular custa mais do que posso dar por ele - afinal, meu salário deve pagar primeiro as necessidades básicas (moradia, alimentação, transporte, saúde, vestuário, educação e lazer, se sobrar algum), depois virão os supérfluos. Só que, muitas vezes, os desejos falam mais alto e nos endividamos para poder fruir do prazer de objetos de menor necessidade.

O produto aparece como uma realidade autônoma sem a qual a vida fica meio sem graça. É como se a posse do celular me animasse e me enchesse de alegria. Como se, sem objetos que dão algum status, nos tornássemos um ninguém, uma engrenagem apenas. Por isso, passamos a ter uma relação de desejo e de adoração com as mercadorias. Então, elas se tornam um fetiche. Pelo trabalho, construímos o objeto, definimos sua utilidade e lhe atribuímos valor. Com o sistema capitalista, a relação se inverte e agora é o objeto que passa a definir quem somos e quanto valemos.

Entender essa relação nos permite saber como muitos de nossos desejos são produzidos e, com isso, ter clareza para definir nossas prioridades - como e com o que gastamos o nosso dinheiro.
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* Marta Vitória de Alencar é professora de Filosofia da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da USP.

6 de outubro de 2008

CARTA PARA A MANA

Carlos Edu Bernardes

Mana, a única realidade que presta é a realidade do coração. Cecília Meirelles estava certa ao dizer que a vida só é possível se for reinventada. O que é essa realidade em que vivemos senão a disposição concreta dos desejos primários e brutos da maioria das pessoas? A gente sempre teve a certeza de que a compreensão, o amor, a aceitação e a simplicidade seriam questões óbvias de chegada. E serão. Mas não nesse século, não nesse milênio.

Então, que porta adentraremos para flertar com esse longínqüo futuro e fazermos precocemente, e puramente, luzir a fagulha desse tempo que virá? Sem dúvida é a porta da arte, da literatura, da filosofia e da dignidade de nunca perder a infância. Como sempre dizia Fernando Sabino: quando eu crescer eu quero ser menino!

Beijo e picolé de queijo!