29 de janeiro de 2009

2020

Carlos Edu Bernardes

- Filho, acorda! Papai já está indo para a nossa Santa Empresa. Coloque sua roupa com colete à prova de gente e venha ver como o papai ensinou os empregados a remover os cadáveres da porta da garagem.
- Já vou, pai...
- Você viu meu carro novo?
- Vi. Que beleza, hein! Ele já vem equipado com blindagem e armas de grosso calibre?
- Claro! Ou você pensa que a evolução humana não cria maravilhas a cada dia?
- É... Mas, pai. Ontem à noite você disse que ia me levar hoje para conhecer uma árvore.
- Sim, mas é mais tarde, depois da sua aula de 'Como Ficar Biliardário em 10 Anos' pela internet. Mesmo porque o jatinho ainda não saiu da revisão.
- Tá... Outra coisa, pai. Você disse também que antigamente existia uma tal de escola, faculdade, onde as pessoas iam estudar?
- Sim, mas isso é coisa do passado. Quem precisa conviver com todo tipo de gente se hoje podemos aprender tudo que é necessário numa casa tão bem aparelhada como a nossa?
- Sei.
- Além do mais, é não dando chances ao outro de entender nossas ideias é que vamos dominar cada vez mais a arte do negócio e do mercado. Lembre-se eu estou preparando você para ser um dos dominadores do mercado, como eu.
- Ok.
- Mas anda logo, pois ontem eu tive que disparar muitas balas para limpar a frente da casa matando aqueles pedintes odiosos. Anda, filho! Tempo é dinheiro! Você sabe muito bem disso, pois já tem seis anos!

15 de janeiro de 2009

CABUM!

Carlos Edu Bernardes

Hoje, digitando um texto no word (aquela beleza de software...) eu, sem querer, enfiei os dedos entre as teclas e, imediatamente, o que estava sendo digitado em português (novamente engatinhando com a reforma ortográfica) passou para o grego, ou algo parecido - não me espantaria se fosse uma linguagem extraterrestre. Apesar disso já haver acontecido outras vezes e com outros resultados até risíveis, dessa vez um calafrio me passou pela espinha: bom, com a quantidade de máquinas interligadas no mundo todo através da internet, com conexões vampiras para tudo quanto é lado (graças aos fdps dos hackers nocivos) quem pode garantir que alguém lá no Pentágono ou na ilha de Gólgota digitando e enfiando o dedão num control qualquer não pode acionar o disparo de uma ogiva nuclear por aí ou ocasionar um blackout no Ceilão? Eu hein! É, galera, o caos tem tantas vestimentas que às vezes nem sei se sou eu mesmo quem está digitando essas linhas... Ôpa, $%$##@@#%&&*())(*$$%$#@@!...

6 de janeiro de 2009

O NEGATIVO DE JACK

Carlos Edu Bernardes

Chegou em casa e lavou os óculos com muita raiva: na verdade, queria esfregar com força os próprios olhos. Queria ser um daqueles raspadores de outdoors para apagar com uma espátula raspenta todo o tipo de imagem dela que ainda estava gravada nas suas retinas. Esfregou-os com álcool também. Depois sentou-se na sala e pegou papel e caneta. Escreveu: Marina, Marina, Marina. Destacou o papel do bloco e, pacientemente, rasgou-o em mil pedacinhos, tendo o cuidado de separar cada letra num pequeno pedaço: esquartejá-la para que ela desapareça mais facilmente no vento louco do verão.

Pegou a caixa de fotografias e separou tranqüilamente cada uma de suas últimas namoradas. Um calafrio subiu-lhe pela espinha: lembrou-se de que as melhores fotos de Marina estavam com um conhecido, artista plástico, para montagem de um painel a ser colocado na sala! Vestiu um casaco e entrou no carro, zarpando a mil por hora. O sujeito não estava. Quebrou a porta e entrou no ateliê. Viu o painel na parede oposta: lindo! Como Marina estava bela! Todas as fotos canalizando-se numa passarela de Marinas que deslizavam na frente dos seus olhos.

Não sentiu a primeira mordida dos Dobermans. Nem teve tempo de reação para escapar da segunda. Morreu dilacerado, rasgado em mil pedaços, bem na frente de uma Marina linda... e inteira.

3 de janeiro de 2009

NÃO ME TIRES O QUE NÃO PODES ME DAR

Carlos Edu Bernardes

Diógenes, o cínico (404-323a.C.).

Diógenes é assinalado, em muitas histórias da filosofia, como o filósofo que desprezou ostensivamente os poderosos e as convenções sociais, nisso nóis inté parece. Nasceu em Sínope, que não é nada perto de Monte Alegre de Minas. Foi discípulo de Antístenes (c.444-365 a.C.), fundador da filosofia cínica e eu discípulo do vôvô Fenelon Bernardes (1889-1992), fundador da fivelada lombálgica.

Como todos os cínicos Diógenes desprezava as idéias gerais e as convenções sociais, negando a possibilidade da própria ciência, coisica que num faço nem! Ficar sem ouvir Beatles? Humpf!

Diógenes ficou associado a diversos episódios que exprimem as suas idéias éticas, as únicas a que dava verdadeira importância. A única forma de vida aceitável seria a conforme à natureza, tudo o mais não passava de vento, ou seja, peido.

Conta-se que Alexandre da Macedônia, o grande imperador da antiguidade, ao encontrá-lo lhe teria perguntado o que mais desejava. Acontece que devido à posição em que se encontrava, Alexandre fazia-lhe sombra. Diógenes, então olhando para o sol afirmou: "Não me tires o que não me podes dar!".

Levando ao extremo esta atitude de desprezo pelas convenções sociais, Diógenes, tinha como casa um barril e vestia-se de trapos. Perambulava pela cidade com uma lamparina acesa, mesmo de dia, afirmando a quem o interrogava que procurava "um verdadeiro homem". Aquele que vivia de acordo com a natureza.

Já Fenelon percorria a cidade com um barril vazio a procura de mais cachaça. Quando não encontrava tomava Biotônico Fontoura misturado em álcool e metia bala de cartucheira para todo lado, danificando a natureza e as orelhas de transeuntes desavisados
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Completemos com James Geary, que nos diz: "Nunca confie em um animal; não importa quantas patas ele tenha”