20 de outubro de 2008

VÍTIMAS DO MERCADO

Marta Vitória de Alencar *

Você já parou para pensar por que inúmeras vezes desejamos algum objeto que não é essencial para a nossa vida? A filosofia pode ajudá-lo a entender. Trata-se de um desejo permanentemente alimentado pela indústria e pelo mercado que necessitam de consumidores para sobreviver, segundo Karl Marx (1818 - 1883), filósofo e economista que produziu uma teoria para explicar a gênese do capitalismo. Para Marx, estabelecemos com os produtos fabricados no sistema capitalista uma relação que ele chama de fetichismo da mercadoria.

Vamos entender como é isso: imagine que sou um operário e vendo minha força de trabalho para o dono da fábrica, o capitalista. Transfiro para ele a propriedade do produto de meu trabalho. O valor dos objetos que produzo é superior ao que recebo como salário. Mas eu não tenho uma real dimensão de quanto valor produzi, porque o processo é alienante: o produto de meu trabalho não me pertence e, por isso, não me reconheço nele. O que é reforçado pela fragmentação da produção: só executo um componente do produto. Suponhamos que trabalho numa fábrica de chip de celulares. O que ocorre quando vou comprar um desses aparelhos é a discrepância entre o que a loja cobra por ele e o que posso pagar, além de um sentimento de frustração e impotência.

Não temos plena consciência disso, mas, no fundo, essa situação desperta a crença de que o celular vale mais do que nós. Não sei como nem por quê, mas o celular custa mais do que posso dar por ele - afinal, meu salário deve pagar primeiro as necessidades básicas (moradia, alimentação, transporte, saúde, vestuário, educação e lazer, se sobrar algum), depois virão os supérfluos. Só que, muitas vezes, os desejos falam mais alto e nos endividamos para poder fruir do prazer de objetos de menor necessidade.

O produto aparece como uma realidade autônoma sem a qual a vida fica meio sem graça. É como se a posse do celular me animasse e me enchesse de alegria. Como se, sem objetos que dão algum status, nos tornássemos um ninguém, uma engrenagem apenas. Por isso, passamos a ter uma relação de desejo e de adoração com as mercadorias. Então, elas se tornam um fetiche. Pelo trabalho, construímos o objeto, definimos sua utilidade e lhe atribuímos valor. Com o sistema capitalista, a relação se inverte e agora é o objeto que passa a definir quem somos e quanto valemos.

Entender essa relação nos permite saber como muitos de nossos desejos são produzidos e, com isso, ter clareza para definir nossas prioridades - como e com o que gastamos o nosso dinheiro.
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* Marta Vitória de Alencar é professora de Filosofia da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da USP.

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