6 de janeiro de 2009

O NEGATIVO DE JACK

Carlos Edu Bernardes

Chegou em casa e lavou os óculos com muita raiva: na verdade, queria esfregar com força os próprios olhos. Queria ser um daqueles raspadores de outdoors para apagar com uma espátula raspenta todo o tipo de imagem dela que ainda estava gravada nas suas retinas. Esfregou-os com álcool também. Depois sentou-se na sala e pegou papel e caneta. Escreveu: Marina, Marina, Marina. Destacou o papel do bloco e, pacientemente, rasgou-o em mil pedacinhos, tendo o cuidado de separar cada letra num pequeno pedaço: esquartejá-la para que ela desapareça mais facilmente no vento louco do verão.

Pegou a caixa de fotografias e separou tranqüilamente cada uma de suas últimas namoradas. Um calafrio subiu-lhe pela espinha: lembrou-se de que as melhores fotos de Marina estavam com um conhecido, artista plástico, para montagem de um painel a ser colocado na sala! Vestiu um casaco e entrou no carro, zarpando a mil por hora. O sujeito não estava. Quebrou a porta e entrou no ateliê. Viu o painel na parede oposta: lindo! Como Marina estava bela! Todas as fotos canalizando-se numa passarela de Marinas que deslizavam na frente dos seus olhos.

Não sentiu a primeira mordida dos Dobermans. Nem teve tempo de reação para escapar da segunda. Morreu dilacerado, rasgado em mil pedaços, bem na frente de uma Marina linda... e inteira.

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