3 de abril de 2009

UMA CARTILHA DE CIDADANIA

Sávia Diniz *

Há poucos dias deixei de ser pobre. Sem que houvesse qualquer acréscimo nos meus rendimentos bancários, ocorresse algum milagre espiritual ou econômico, ou tenha eu estreitado laços de amizade com alguma empreiteira budista. O fato é que, agora, sou uma “cidadã em situação de vulnerabilidade sócio-econômica”, de acordo com as regras do dicionário politicamente correto. Considerei a expressão de criativa sutileza, não fosse o fato de que continuei me sentindo pobre. Refinada, mas ainda em infeliz situação financeira.

Talvez aí more o perigo. Os termos politicamente corretos só atingem o objetivo de tratar as pessoas com respeito e honestidade, independentemente de sua aparência física, credo, opiniões e filosofias de vida, quando vêm acompanhados de uma política de conscientização dos direitos alheios, de educação e princípios éticos.

O que vemos atualmente se resume a um desfile de verniz gramatical, que mal esconde na fala macia os olhos de desdém ou de reprovação. Obviamente, a má vontade social em continuar praticando as boas maneiras de fachada não desabona as iniciativas de particulares, associações e entidades que persistem na sua implementação, dentro dos limites do bom senso.

E digo mais, ser politicamente correto é uma postura de vida que vai além da superfície, estabelecendo uma relação de coerência entre o que se pensa, fala e faz entre quatro paredes ou num palanque. Pode parecer filosofia para alguns ou conversa fiada para outros; entretanto esse tipo de comportamento nos dá a credibilidade para cobrar a mesma atitude de quem quer que seja, colocando abaixo os discursos vazios ou a discreta hipocrisia.

Deveríamos começar intimando os nossos parlamentares ao cumprimento das tão polêmicas e urgentes reformas políticas, judiciárias, orçamentárias, eleitorais e previdenciárias; que estancariam a hemorragia que leva para o ralo o dinheiro, o suor, os direitos e os sonhos dos contribuintes.

Nestas propostas de mudança encontramos as ferramentas concretas para cobrar de nossos representantes o atendimento das necessidades públicas, ao invés das escusas e secretas. Quem sabe, uma justiça que algeme os criminosos e tenha instrumentos e recursos legais para mantê-los encarcerados. Ou será que somente socialites norte-americanas são condenadas e cumprem pena por dirigirem embriagadas?

Com mais boa-vontade, instituir uma previdência com valores de contribuição compatíveis com as novas expectativas de longevidade dos brasileiros, sem perder de vista os abismos sociais que ainda requerem o amparo de muitos e a cobrança inapelável de tantos outros.

Igualmente que se faz necessário fechar a torneira do dinheiro público, moeda de troca entre empresas privadas, lobistas e comissões de raposas astutas que há tempos levam mocinhos e mocinhas não tão ingênuas pelo bico. Levando a cabo esse e tantos outros absurdos que acorrentam o Brasil a uma taxa de crescimento insignificante, enquanto as demais nações emergentes seguem na pista dupla em alta velocidade.

Também nos autoriza a exigir - dos juízes especialistas na venda de liminares, dos políticos que barganham emendas em bancas de feiras, dos farmacêuticos, médicos, advogados e quaisquer outros profissionais que pratiquem desde pequenos ilícitos até atos que nos causem verdadeiro asco e revolta - um pouco mais de decência e bons modos.

Sobretudo, fica a responsabilidade de não nos calarmos perante as injustiças e os erros, levando a nossa repulsa às ruas, aos meios de comunicação (e que estes nunca sejam silenciados), aos tribunais e às urnas.

O caminho para o pleno exercício da cidadania e a conquista da dignidade é longo. Porém de antemão já sabemos que, embora a ignorância e o oportunismo estejam arraigados nos maus costumes de nosso país, uma nova perspectiva de valores positivos se insinua corajosamente. É só o começo. Mas vale a pena para aqueles que ainda acreditam que a pior pobreza é a de espírito.

* Sávia Diniz é historiadora. Fomos colegas na UCG, quando eu terminava meu curso de Filosofia.

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