29 de janeiro de 2009

2020

Carlos Edu Bernardes

- Filho, acorda! Papai já está indo para a nossa Santa Empresa. Coloque sua roupa com colete à prova de gente e venha ver como o papai ensinou os empregados a remover os cadáveres da porta da garagem.
- Já vou, pai...
- Você viu meu carro novo?
- Vi. Que beleza, hein! Ele já vem equipado com blindagem e armas de grosso calibre?
- Claro! Ou você pensa que a evolução humana não cria maravilhas a cada dia?
- É... Mas, pai. Ontem à noite você disse que ia me levar hoje para conhecer uma árvore.
- Sim, mas é mais tarde, depois da sua aula de 'Como Ficar Biliardário em 10 Anos' pela internet. Mesmo porque o jatinho ainda não saiu da revisão.
- Tá... Outra coisa, pai. Você disse também que antigamente existia uma tal de escola, faculdade, onde as pessoas iam estudar?
- Sim, mas isso é coisa do passado. Quem precisa conviver com todo tipo de gente se hoje podemos aprender tudo que é necessário numa casa tão bem aparelhada como a nossa?
- Sei.
- Além do mais, é não dando chances ao outro de entender nossas ideias é que vamos dominar cada vez mais a arte do negócio e do mercado. Lembre-se eu estou preparando você para ser um dos dominadores do mercado, como eu.
- Ok.
- Mas anda logo, pois ontem eu tive que disparar muitas balas para limpar a frente da casa matando aqueles pedintes odiosos. Anda, filho! Tempo é dinheiro! Você sabe muito bem disso, pois já tem seis anos!

15 de janeiro de 2009

CABUM!

Carlos Edu Bernardes

Hoje, digitando um texto no word (aquela beleza de software...) eu, sem querer, enfiei os dedos entre as teclas e, imediatamente, o que estava sendo digitado em português (novamente engatinhando com a reforma ortográfica) passou para o grego, ou algo parecido - não me espantaria se fosse uma linguagem extraterrestre. Apesar disso já haver acontecido outras vezes e com outros resultados até risíveis, dessa vez um calafrio me passou pela espinha: bom, com a quantidade de máquinas interligadas no mundo todo através da internet, com conexões vampiras para tudo quanto é lado (graças aos fdps dos hackers nocivos) quem pode garantir que alguém lá no Pentágono ou na ilha de Gólgota digitando e enfiando o dedão num control qualquer não pode acionar o disparo de uma ogiva nuclear por aí ou ocasionar um blackout no Ceilão? Eu hein! É, galera, o caos tem tantas vestimentas que às vezes nem sei se sou eu mesmo quem está digitando essas linhas... Ôpa, $%$##@@#%&&*())(*$$%$#@@!...

6 de janeiro de 2009

O NEGATIVO DE JACK

Carlos Edu Bernardes

Chegou em casa e lavou os óculos com muita raiva: na verdade, queria esfregar com força os próprios olhos. Queria ser um daqueles raspadores de outdoors para apagar com uma espátula raspenta todo o tipo de imagem dela que ainda estava gravada nas suas retinas. Esfregou-os com álcool também. Depois sentou-se na sala e pegou papel e caneta. Escreveu: Marina, Marina, Marina. Destacou o papel do bloco e, pacientemente, rasgou-o em mil pedacinhos, tendo o cuidado de separar cada letra num pequeno pedaço: esquartejá-la para que ela desapareça mais facilmente no vento louco do verão.

Pegou a caixa de fotografias e separou tranqüilamente cada uma de suas últimas namoradas. Um calafrio subiu-lhe pela espinha: lembrou-se de que as melhores fotos de Marina estavam com um conhecido, artista plástico, para montagem de um painel a ser colocado na sala! Vestiu um casaco e entrou no carro, zarpando a mil por hora. O sujeito não estava. Quebrou a porta e entrou no ateliê. Viu o painel na parede oposta: lindo! Como Marina estava bela! Todas as fotos canalizando-se numa passarela de Marinas que deslizavam na frente dos seus olhos.

Não sentiu a primeira mordida dos Dobermans. Nem teve tempo de reação para escapar da segunda. Morreu dilacerado, rasgado em mil pedaços, bem na frente de uma Marina linda... e inteira.

3 de janeiro de 2009

NÃO ME TIRES O QUE NÃO PODES ME DAR

Carlos Edu Bernardes

Diógenes, o cínico (404-323a.C.).

Diógenes é assinalado, em muitas histórias da filosofia, como o filósofo que desprezou ostensivamente os poderosos e as convenções sociais, nisso nóis inté parece. Nasceu em Sínope, que não é nada perto de Monte Alegre de Minas. Foi discípulo de Antístenes (c.444-365 a.C.), fundador da filosofia cínica e eu discípulo do vôvô Fenelon Bernardes (1889-1992), fundador da fivelada lombálgica.

Como todos os cínicos Diógenes desprezava as idéias gerais e as convenções sociais, negando a possibilidade da própria ciência, coisica que num faço nem! Ficar sem ouvir Beatles? Humpf!

Diógenes ficou associado a diversos episódios que exprimem as suas idéias éticas, as únicas a que dava verdadeira importância. A única forma de vida aceitável seria a conforme à natureza, tudo o mais não passava de vento, ou seja, peido.

Conta-se que Alexandre da Macedônia, o grande imperador da antiguidade, ao encontrá-lo lhe teria perguntado o que mais desejava. Acontece que devido à posição em que se encontrava, Alexandre fazia-lhe sombra. Diógenes, então olhando para o sol afirmou: "Não me tires o que não me podes dar!".

Levando ao extremo esta atitude de desprezo pelas convenções sociais, Diógenes, tinha como casa um barril e vestia-se de trapos. Perambulava pela cidade com uma lamparina acesa, mesmo de dia, afirmando a quem o interrogava que procurava "um verdadeiro homem". Aquele que vivia de acordo com a natureza.

Já Fenelon percorria a cidade com um barril vazio a procura de mais cachaça. Quando não encontrava tomava Biotônico Fontoura misturado em álcool e metia bala de cartucheira para todo lado, danificando a natureza e as orelhas de transeuntes desavisados
.

Completemos com James Geary, que nos diz: "Nunca confie em um animal; não importa quantas patas ele tenha”

10 de dezembro de 2008

SOCIEDADE EM DECADÊNCIA

Haroldo P. Barboza *

A sucessão de escândalos nacionais envolvendo figuras deprimentes da nossa política forma uma pirâmide de lama fétida que está corroendo as estruturas das entidades ora desacreditadas.

Principalmente as câmaras públicas seguidas de perto pelos palácios regionais da Justiça. E atropelando por fora, chegam os sindicatos que outrora defenderam os interesses dos trabalhadores e que agora defendem os empresários. O desrespeito está se alastrando sem controle entre os jovens que passam a acreditar que está tudo liberado e a desesperança de seus responsáveis está aumentando por perceberem que o futuro de seus herdeiros se mostra mais horrendo do que o suportável apesar de algumas tentativas de colocá-los num bom caminho.

As famílias que se acomodaram enfrentam uma luta desigual contra os amigos de esquina que distribuem drogas entre seus herdeiros largados sob a vigilância de games explosivos. Por esta tendência, jovens agridem índios, domésticas, lésbicas, gays e assemelhados. Fumam drogas a céu aberto, estupram menores e executam corridas noturnas de carros nas ruas das cidades na certeza de que nada acontecerá, pois a Justiça está sucateada e é fácil de ser "amaciada". Basta-nos ver com que facilidade os perigosos detentos usam celulares em suas celas nas prisões, como se fossem seus escritórios.

Adolescentes que queimam índios e afogam colegas nas piscinas estão livres e alguns já montaram consultórios! Só falta descobrirmos dentro de quantos anos (até quando a mídia pesada puder iludir os esfomeados) a convulsão social violenta eclodirá em territórios sacrificados penalizando milhares de inocentes arrastados para uma luta que não desejaram e não terão recursos para conter. Nem salvar seus herdeiros desprotegidos.

E mesmo embutido neste cenário de horror, certamente a tv lançará um "show da realidade" dentro de algum prédio abrigando habitantes desesperados pelas balas cruzando sobre suas cabeças disparadas por meia dúzia de meliantes que dominam as favelas inchadas que agora contornam os luxuosos condomínios. O último sobrevivente receberá um polpudo prêmio de U$ 1 MI.

Deve ser suficiente para cobrir as despesas com os enterros dos parentes falecidos.
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* Haroldo P. Barboza - Vila Isabel / RJ - Autor do livro: Brinque e cresça feliz

9 de dezembro de 2008

RIMAR RIMEI

Carlos Edu Bernardes

pode parecer dissonante
ou sem cabimento
dizer que a rima num poema
preferencialmente
só agrada ao declamante

a mensagem por não ter rima
não perde esteticamente
a plasticidade do corpo que a circunda
e se perder quero deixar-me levar por cima
ao gozo profundo nessa sensação dela oriunda
e esperar a título de gozação
na beatitude dos saciados que me fascina
uma negativa descrente da inspiração
geométrica quadrada sem bunda

o escritor literalmente ofendido
e que isso não confirma
atesta a inflexibilidade do seu estilo
pois é tentando ser milimetricamente ouvido
que ele não consegue dizer poeticamente
aquilo

5 de dezembro de 2008

O QUE É ESSENCIAL PARA VOCÊ?

Carlos Edu Bernardes

Imagine se isso ao redor do barco fosse dinheiro. O rio estaria melhor? Essa é uma questão difícil de ser assimilada pelo ser humano, principalmente o contemporâneo. É impressionante a velocidade da adoração aos bens materiais de algumas décadas para cá. Desde a chegada do capitalismo a todos os recônditos do mundo estamos presenciando, apreensivos, o desaparecimento de identidades e a extinção gradativa de hábitos e pensamentos que não levem puramente a um resultado material, financeiro. E essa velocidade tirou o gosto de se percorrer um caminho, de viver cada momento, de separar alguns momentos na vida para brincar com uma criança ou reparar no pôr-do-sol, em prol apenas de um resultado rápido e concreto. Ok. O dinheiro é importante, mas não é essencial como a água ou o ar, ainda possíveis de fazerem parte do nosso dia-a-dia e percebidos como valores primordiais, e imensuráveis, que têm. Uma carreira de sucesso (o que é o sucesso?) é importante, mas ter tempo para a família e filhos é essencial. Possuir um carro incrível para locomoção e lazer também é muito importante, mas ter com quem se encontrar e ser bem recebido nos lugares em que se chega, mesmo a pé, é essencial.

Talvez por isso o sistema vigente, predador, violento e excludente (esse capitalismo que vemos no controle de poucos tem pouca coisa do real capitalismo, onde oportunidades e direitos são iguais e onde a justiça é para todos) nos nuble o horizonte do bem estar. E nós o endossamos. E, zumbis, não nos empenhamos em ouvir a voz interior que nos pede coisas simples e essenciais, e promovemos o desaparecimento de vidas que também sequer tentaram pensar que ter as coisas, simplesmente, e cada vez mais, não gera sentimentos essenciais em que se apóia e regozija a alma. Cegamente vamos em busca de posses materiais, a qualquer preço, sobre qualquer valor, e, após obtê-las, olhamos ao redor e não entendemos o porquê de estarmos praticamente sozinhos e com uma incômoda sensação de vazio...

4 de dezembro de 2008

CONSUMO "CONSCIENTE"...


26 de novembro de 2008

LER

Carlos Edu Bernardes

Tudo começou por volta do meu segundo dia de vida. Consegui ler: "Berço 3". Depois, ao ser levado ao quarto onde mamãe estava, li no peito (que peito!) da enfermeira no crachá: "Deise Albuquerque - Enfermeira".

Ao chegarmos na porta do quarto lá estava uma botinha de lã pendurada com um papelzinho:"Carlos Eduardo chegou!".

Depois, noutros braços, li nos olhos da mulher que me segurava a poesia mais linda gravada na retina de quem acabava de ser mãe pela primeira vez. Ela é intraduzível. Olhe nos olhos de sua mãe para relembrá-la.

Ao lado de flores e bombons consegui vislumbrar um pequeno lembrete embaixo de algumas pétalas: "Obrigado por me dar um companheiro. Você, cada dia mais linda, já precisa de dois homens para protegê-la. Nasceu meu filho, renasci pai".

Depois fui lendo sem parar e descobri que se podia escrever com lápis-de-cor também. Li bulas de remédios e contas de armazém. Cebolinha, Mônica, Homem-Aranha e Tex. Batman, Mandrake, Fantasma, Bolota, Brotoeja, Gasparzinho, Brasinha, Senhora de José de Alencar, Éramos Seis de Dupret, O Escaravelho do Diabo, Os Meninos Da Rua Paulo, Dom Casmurro, Playboy, Ele & Ela, O Alquimista (confesso...), toda a coleção de Carlos Castañeda, O Nome da Rosa, O Pêndulo de Foucault, e tantas outras coisas, tantas outras coisas, tantas outras coisas... Carlos Drummond, Ferreira Gullar, Leminski, Charles Baudalaire, Al-Chaer, Yêda Schmaltz...

20 de outubro de 2008

REFLEXÃO SOBRE A PERCEPÇÃO DE VALOR INTRÍNSECO

Direto da rede caótica:

Aquela poderia ser mais uma manhã como outra qualquer. Eis que o sujeito desce na estação do metrô. Vestindo jeans, camiseta e boné, encosta-se próximo à entrada, tira o violino da caixa e começa a tocar com entusiasmo para a multidão que passa por ali, bem na hora do rush matinal.

Mesmo assim, durante os 45 minutos que tocou, foi praticamente ignorado pelos passantes. Ninguém sabia, mas o músico era Joshua Bell, um dos maiores violinistas do mundo, executando peças musicais consagradas num instrumento raríssimo, um Stradivarius de 1713, estimado em mais de 3 milhões de dólares.

Alguns dias antes Bell havia tocado no Symphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custam a bagatela de 1000 dólares.

A experiência, gravada em vídeo, mostra homens e mulheres de andar ligeiro, copo de café na mão, celular no ouvido, crachá balançando no pescoço, indiferentes ao som do violino. A iniciativa realizada pelo jornal The Washington Post era a de lançar um debate sobre valor, contexto e arte.

A conclusão: estamos acostumados a dar valor às coisas quando estão num contexto. Bell era uma obra de arte sem moldura. Um artefato de luxo sem etiqueta de grife.

Esse é um exemplo daquelas tantas situações que acontecem em nossas vidas que são únicas, singulares, e a que não damos a menor bola porque não vêm com a etiqueta de seu preço. O que tem valor real para nós, independentemente de marcas, preços e grifes? É o que o mercado diz que você deve ter, sentir, vestir ou ser?

Essa experiência mostra como na sociedade em que vivemos os nossos sentimentos e a nossa apreciação de beleza são manipulados pelo mercado, pela mídia, e pelas instituições que detém o poder financeiro.

Mostra-nos
como estamos condicionados a nos mover quando estamos no meio do rebanho. Verdadeiros seguidores da flauta de Hamelin do sistema.

VÍTIMAS DO MERCADO

Marta Vitória de Alencar *

Você já parou para pensar por que inúmeras vezes desejamos algum objeto que não é essencial para a nossa vida? A filosofia pode ajudá-lo a entender. Trata-se de um desejo permanentemente alimentado pela indústria e pelo mercado que necessitam de consumidores para sobreviver, segundo Karl Marx (1818 - 1883), filósofo e economista que produziu uma teoria para explicar a gênese do capitalismo. Para Marx, estabelecemos com os produtos fabricados no sistema capitalista uma relação que ele chama de fetichismo da mercadoria.

Vamos entender como é isso: imagine que sou um operário e vendo minha força de trabalho para o dono da fábrica, o capitalista. Transfiro para ele a propriedade do produto de meu trabalho. O valor dos objetos que produzo é superior ao que recebo como salário. Mas eu não tenho uma real dimensão de quanto valor produzi, porque o processo é alienante: o produto de meu trabalho não me pertence e, por isso, não me reconheço nele. O que é reforçado pela fragmentação da produção: só executo um componente do produto. Suponhamos que trabalho numa fábrica de chip de celulares. O que ocorre quando vou comprar um desses aparelhos é a discrepância entre o que a loja cobra por ele e o que posso pagar, além de um sentimento de frustração e impotência.

Não temos plena consciência disso, mas, no fundo, essa situação desperta a crença de que o celular vale mais do que nós. Não sei como nem por quê, mas o celular custa mais do que posso dar por ele - afinal, meu salário deve pagar primeiro as necessidades básicas (moradia, alimentação, transporte, saúde, vestuário, educação e lazer, se sobrar algum), depois virão os supérfluos. Só que, muitas vezes, os desejos falam mais alto e nos endividamos para poder fruir do prazer de objetos de menor necessidade.

O produto aparece como uma realidade autônoma sem a qual a vida fica meio sem graça. É como se a posse do celular me animasse e me enchesse de alegria. Como se, sem objetos que dão algum status, nos tornássemos um ninguém, uma engrenagem apenas. Por isso, passamos a ter uma relação de desejo e de adoração com as mercadorias. Então, elas se tornam um fetiche. Pelo trabalho, construímos o objeto, definimos sua utilidade e lhe atribuímos valor. Com o sistema capitalista, a relação se inverte e agora é o objeto que passa a definir quem somos e quanto valemos.

Entender essa relação nos permite saber como muitos de nossos desejos são produzidos e, com isso, ter clareza para definir nossas prioridades - como e com o que gastamos o nosso dinheiro.
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* Marta Vitória de Alencar é professora de Filosofia da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da USP.

6 de outubro de 2008

CARTA PARA A MANA

Carlos Edu Bernardes

Mana, a única realidade que presta é a realidade do coração. Cecília Meirelles estava certa ao dizer que a vida só é possível se for reinventada. O que é essa realidade em que vivemos senão a disposição concreta dos desejos primários e brutos da maioria das pessoas? A gente sempre teve a certeza de que a compreensão, o amor, a aceitação e a simplicidade seriam questões óbvias de chegada. E serão. Mas não nesse século, não nesse milênio.

Então, que porta adentraremos para flertar com esse longínqüo futuro e fazermos precocemente, e puramente, luzir a fagulha desse tempo que virá? Sem dúvida é a porta da arte, da literatura, da filosofia e da dignidade de nunca perder a infância. Como sempre dizia Fernando Sabino: quando eu crescer eu quero ser menino!

Beijo e picolé de queijo!

27 de setembro de 2008

DURMA COM UM BARULHO DESSES...

Carlos Edu Bernardes

Hoje falarei de uma outra nata de imbecis. Daquela que instala um alarme no seu estabelecimento comercial e, para 'reduzir custos', não contrata uma empresa de segurança para fazer o monitoramento. E qual é o resultado? Os alarmes disparam por algum motivo qualquer - veículos com som muito alto, ventos mais fortes, etc... (claro, sempre à noite ou nos finais de semana) e esguelam até percebermos que hoje se fabricam baterias que não se esgotam, e, tchan-tchan-tchan, os proprietários do local não vão checar o que está havendo!

É realmente incrível depararmos com certas mentalidades nesse caos progressivo que está virando a nossa cidade. Várias residências, um hospital e edifícios sendo incomodados por um barulho insistente, chato, inoportuno e o responsável (?) sequer tem como saber se está sendo assaltado ou não! Dá para entender?

Três vivas à educação, ao respeito e à cidadania, onde que que elas tenham se escondido hoje em dia!

22 de setembro de 2008

ANIMAIS NO VOLANTE

Carlos Edu Bernardes

Conforme a cidade cresce, mais chances temos de topar com um número cada vez maior de imbecis. E a gama desses energúmenos é variadíssima! Neste post falarei um pouco (senão definharemos na frente da tela) dos imbecis do trânsito, fauna cada vez numerosa, que sentam atrás de um volante e fazem questão de cortar todo mundo numa velocidade absurda, mesmo que tenham que parar em cada esquina, pois quase não há esquinas aqui na cidade sem um semáforo. Dia desses, acreditem, um médico muito famoso aqui da capital ficou dando sinal de luz para me ultrapassar numa rua muito movimentada. Ele passou voando e... parou no semáforo! Parei tranquilamente do lado, olhei e percebi que ele estava com 3 filhos pequenos no banco traseiro, provavelmente para deixá-los na escola. Abri o vidro e educadamente perguntei para ele se adiantava dirigir naquela velocidade, com crianças no carro, numa rua tão movimentada e cheia de semáforos. Ele simplesmente sequer olhou para mim. É isso aí, Doutor! Então o semáforo abriu e lá foi o exemplo-da-sociedade de novo a toda velocidade... Dou conta?

Noutro dia, mais um débil mental (é, amigo, com tanto carro na rua esse tipo de bicho é figurinha bofeira: tá pra todo lado!) ficou buzinando para que eu aumentasse a velocidade, sendo que havia dois carros na minha frente e em menos de 50 metros percebia-se um semáforo que acabara de entrar no sinal vermelho. Fiz que não ouvi, mas o beócio cortou-me pela direita, reduziu a velocidade, virou as fuças para o meu lado e relinchou: " - Tudo isso é frustração de carro velho?". Eu olhei para o semblante do semovente, que se achava num desses carrinhos de plástico e respondi: " - Meu carro é antigo, velho é o seu!". E fechei o vidro, calmamente. Será que ele entendeu? Duvido.

Não é fácil não, gente!

14 de setembro de 2008

MAIS UMA...

Carlos Edu Bernardes

É. Nosso ouvido brasileiro é mesmo um pinico eterno. Como se não bastassem os "com certeza" para tudo quanto é pergunta ou resposta, além dos famigerados gerúndios "vou tá fazendo", "irei tá te ligando", "vou tá passando um fax" e por aí afora, outra imbecil moda linguística chega avassaladoramente para nos castigar mais ainda os ouvidos: o chatíssimo "Na verdade...".

Todos parecem ter descoberto, de uma hora para outra, a verdade dos assuntos do mundo, pois não há quase mais frase alguma que não comece com o "Na verdade...". Repare.

Valha-me, Deus!

4 de setembro de 2008

RETRATINHO

Carlos Edu Bernardes

Margaret Thatcher lançou o chamado neoliberalismo, que era na realidade um conservadorismo agressivo de um tipo que não era visto desde 1848, e que envolveu uma tentativa de reverter a redistribuição do Estado de Bem-Estar, de modo a beneficiar as classes superiores e não as classes mais baixas.

A dama-de-ferro começou a moda de contração da emissão de moeda; elevação da taxa de juros; redução considerável dos impostos sobre os rendimentos altos; abolição do controle sobre os fluxos financeiros; criação de níveis de desemprego massivos; imposição de uma legislação anti-sindical; corte de gastos sociais; e lançamento de um amplo programa de privatização que atingiu a habitação pública, a indústria de aço, o setor elétrico, a produção de petróleo, a produção de gás e o fornecimento de água. E a coisa disseminou, com o dublê de presidente Ronald Reagan nos EUA e com Collor e FHC aqui na terrinha, só à título de exemplo. Turminha boa! E depois, como se não bastasse, ainda alçamos ao poder esse tal de Lula, o máximo da nossa burrice urnística! Pelo menos até agora...

Resumindo: os ricos cada vez mais ricos, os trabalhadores cada vez mais oprimidos e fazendo trabalho de 10. O governo tirando o dele da reta quando o assunto é social, fazendo leilão entre poderosas empresas privadas transnacionais (e garantindo sua política pornográfica de preços ao consumidor) nas áreas de saúde, educação, telefonia, segurança e tantas outras. Ou seja, o governo não faz nada, controla tudo, recolhe impostos extorsivos e não tá nem aí. Precisa falar dos bancos? Lucros trimestrais L-Í-Q-U-I-D-O-S em bilhões de reais? Acho que não, né?

O marketing perverso ditando que o sistema é belíssimo (um novo carro: apenas R$52.000,00. Aproveite!), a população acreditando que ela é que não tem competência (então ela se volta contra ela mesma - pois o sistema é belo e não precisa ser mudado - e dá-lhe violência no trânsito; violência nos lares, drogas para todo lado...), que o negócio é cada um no seu mundo (no computador, no celular, no fone de ouvido) e se o MEU tá garantido que se dane o outro!

E, claro, nós, massacrados, ficamos sem tempo para reuniões de estudo, sem tempo para filosofar (pensar o país e não somente na sobrevivência), sem debates, com os professores de humanas cada vez mais marginalizados.

Antigamente discutíamos a política nas praças. Hoje quem tem um pinguinho de interesse escreve suas impressões nalgum blog, que quase ninguém lê.

29 de agosto de 2008

COMÉDIA EMPRESARIAL

Carlos Edu Bernardes

Enquanto isso, na maioria das empresas do Brasil varonil:

- Bom dia!
- Pois não!
- Gostaria de falar com o Sr. João.
- Olha, o Sr. João está em reunião.
- Sim, por isso eu liguei aí. Você não fala da Reunião Ltda.?
- Sim, porém o Sr. João está em reunião aqui na Reunião Ltda.
- Certo. Quando é que ele não estará em reunião?
- Olha, o Sr. João sempre está na Reunião Ltda.
- Não, gostaria de saber quando é que ele não estará em reunião na Reunião Ltda.
- Como?
- Sempre que eu ligo o Sr. João está em reunião e não consigo falar com ele sobre a Reunião Ltda.
- Sei...
- Bom, quando é que o Sr. João estará na Reunião Ltda. sem estar em reunião para que eu possa tratar de um assunto de interesse da Reunião Ltda.
- O Sr. pode repetir?
- Ah, deixa pra lá.

19 de agosto de 2008

MOMENTO POLÍTICO

Carlos Edu Bernardes

todas
as
mulheres
e amigos
que
eu
não
tenho
mais
querem
indenização
porque eu
me especializei
em
corrupção

TUDO

Carlos Edu Bernardes

quero apoderar-me do teu encanto
sem ao menos no entanto
abandonar essa vontade
de proferir o nosso canto
por onde sobreviver a verdade
e que façamos dela realidade
mesmo que soframos tanto

12 de agosto de 2008

CLASSIFICADOS

Carlos Edu Bernardes

circulam os primeiros orgãos artificiais:
se você sentir uma desconfortável sensação de amor
e uma vontade irrefreável de se preocupar com o próximo
não entre em pânico
porém seja rápido
adquira já
um coração remusculado BioTec
e viva mais 75 anos
lustrando o seu cofre
e o seu espelho

APROVEITE!

SUICÍDIO DO BONECO DA VIVO

11 de agosto de 2008

HOMO SAPIENS SAPIENS...

Carlos Edu Bernardes

sorte tiveram os dinossauros
pelo visto
uma das poucas espécies não extintas
com muito sofrimento
pelo homem

EXUMAÇÕES ATUAIS

Carlos Edu Bernardes

entre o que restou
de algumas flores e a roupa
nenhum sinal de osso
mas o HD ainda piscava

9 de agosto de 2008

A DÚVIDA

Carlos Edu Bernardes

Perguntaram ao físico Albert Einstein sobre o que ele acreditava ser infinito. Ele respondeu ao seu interlocutor que julgava ser o universo e a estupidez humana, mas que ainda tinha algumas dúvidas quanto a infinitude do universo.

O PASSADO

Carlos Edu Bernardes

Certa vez, num passado recente, fui assistir o filme 'O Passado'. Chegando no cinema a moça da bilheteria me disse que 'O Passado' já tinha passado. Perguntei então quando é que 'O Passado' passaria novamente e ela me disse que 'O Passado' só passaria amanhã, ou seja, 'O Passado' voltaria a passar noutro dia. Bom, como 'O Passado' já havia passado hoje, 'O Passado' só voltaria a passar daqui há algum tempo, porém é certo que 'O Passado' continuará passando enquanto houver interesse em se saber o que pode nos mostrar 'O Passado'. Pensando bem, só no futuro é que poderia assistir 'O Passado', mas, estando no futuro, este será presente e 'O Passado' terá passado como passou hoje, até passar totalmente e todos se acostumarem sobre o fato de que 'O Passado' já passou. Saí do cinema meio passado, sem ter visto 'O Passado', e a caminho de casa aluguei o DVD do filme 'De Volta Para o Futuro'.

8 de agosto de 2008

TÁ TUDO MUITO BEM? TÁ TUDO MUITO BOM?

Carlos Edu Bernardes

Chomsky (1998) julga que a mídia fabrica o consenso. Se você, como diz Chomsky, não pode forçar as pessoas a obedecerem um regime à força (como fazia a ex-União Soviética e outras ditaduras no mundo), então você lança mão de propagandas que garantam que as pessoas concordarão com a ordem que os grupos estão impondo à sociedade.

7 de agosto de 2008

ÚLTIMAS FRASES PRONUNCIADAS...

Carlos Edu Bernardes

- Venha, atravesse aqui comigo. Todo mundo respeita essa faixa de pedestre.- Alô?! Querida? Olha, me sequestraram apenas como forma de aviso para a empresa. Vão me soltar agorinha. - Lá vem o avião! Calma, ele só vai dar um rasante aqui pertinho de nós. Não há perigo algum.- Pra te provar que essa cobra não é de nada eu vou colocá-la ao redor do meu pescoço.
- Eu vou lá no fundo do rio buscar a moedinha e já volto. - Eu não te falei que podíamos ficar aqui embaixo dessa árvore nessa tempestade que não ia cair raio algum?- Vou entrar lá! Não serão três pit-bulls de merda que vão me assustar!- Venha, pode vir. Aqui na torcida do Corinthians ninguém vai ligar pelo fato de estarmos com a camisa do Palmeiras. - Estou tão confiante que farei o próximo salto sem a rede de proteção.
- Duvido que você vai puxar esse gatilho só porque me pegou aqui na cama com a sua irmã. Você não me ama?- Pode cortar o fio vermelho. Confie em mim!

O ELOGIO DA LOUCURA

Carlos Edu Bernardes

Erasmo de Rotterdam, Séc. XVI:

"Já que a raça humana insiste em ser completamente louca - já que todas as pessoas, do Papa ao mais humilde pároco de aldeia - do mais rico dos homens ao mais miserável dos mendigos - da honrada dama em suas sedas e cetins à mulher vulgar em seu vestido de chita - já que todos se decidiram firmemente a não usar o cérebro que Deus lhes deu, mas insistem em se deixar guiar inteiramente pela ambição, vaidade, ignorância, porque, em nome de uma divindade racional, deveriam as poucas pessoas realmente inteligentes perder seu tempo e esforço, tentando mudar o gênero humano, transformando-o em algo que ele jamais desejou ser? Deixemo-lo viver feliz em suas loucuras. Não o privemos daquilo que, acima de tudo, lhe dá maior prazer: seu infinito poder de se tornar ridículo".

AUSCULTADOR

Carlos Edu Bernardes

e o navio
aproveitando a estadia da tripulação na terra
virou-se calmamente
para escutar o coração do mar