11 de fevereiro de 2009

O IMPÉRIO DO CONSUMO - 7ª e ÚLTIMA PARTE

Eduardo Galeano

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota assim como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem pausa, no mercado. Mas, para qual outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar na historinha de que Deus vendeu o planeta para umas poucas empresas porque, estando de mau humor, decidiu privatizar o universo? A sociedade de consumo é uma armadilha para pegar bobos.

Aqueles que comandam o jogo fazem de conta que não sabem disso, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca Natureza que nos resta. A injustiça social não é um erro por corrigir, nem um defeito por superar: é uma necessidade essencial. Não existe Natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.

10 de fevereiro de 2009

IMPÉRIO DO CONSUMO - 6ª PARTE

Eduardo Galeano

Os terminais de ônibus e as estações de trens, que até pouco tempo atrás eram espaços de encontro entre pessoas, estão se transformando, agora, em espaços de exibição comercial. O shopping center, o centro comercial, vitrine de todas as vitrines, impõe sua presença esmagadora. As multidões concorrem, em peregrinação, a esse templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora é submetida ao bombardeio da oferta incessante e extenuante. A multidão, que sobe e desce pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago; e para ver e ouvir não é preciso pagar passagem. Os turistas vindos das cidades do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas benesses da felicidade moderna, posam para a foto, aos pés das marcas internacionais mais famosas, tal e como antes posavam aos pés da estátua do herói na praça.

Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam até o centro. O tradicional passeio do fim-de-semana até o centro da cidade tende a ser substituído pela excursão até esses centros urbanos. De banho tomado, arrumados e penteados, vestidos com suas melhores galas, os visitantes vêm para uma festa à qual não foram convidados, mas podem olhar tudo. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.

A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo à descartabilidade midiática. Tudo muda no ritmo vertiginoso da moda, colocada a serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje, quando o único que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, são tão voláteis quanto o capital que as financia e o trabalho que as gera. O dinheiro voa na velocidade da luz: ontem estava lá, hoje está aqui, amanhã quem sabe onde, e todo trabalhador é um desempregado em potencial.

Paradoxalmente, os shoppings centers, reinos da fugacidade, oferecem a mais bem-sucedida ilusão de segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, além das turbulências da perigosa realidade do mundo.

9 de fevereiro de 2009

O IMPÉRIO DO CONSUMO - 5ª PARTE

Eduardo Galeano

O criminologista Anthony Platt observou que os delitos das ruas não são fruto somente da extrema pobreza. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social pelo sucesso, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Eu sempre ouvi dizer que o dinheiro não traz felicidade; mas qualquer pobre que assista televisão tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro traz algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.

Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX marcou o fim de sete mil anos de vida humana centrada na agricultura, desde que apareceram os primeiros cultivos, no final do paleolítico. A população mundial torna-se urbana, os camponeses tornam-se cidadãos. Na América Latina, temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo, e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em todas as partes, mas por experiência própria sabem que atende nos grandes centros urbanos.

As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os esperadores olham a vida passar, e morrem bocejando; nas cidades, a vida acontece e chama. Amontoados em cortiços, a primeira coisa que os recém-chegados descobrem é que o trabalho falta e os braços sobram, que nada é de graça e que os artigos de luxo mais caros são o ar e o silêncio.

Enquanto o século XIV nascia, o padre Giordano da Rivalto pronunciou, em Florença, um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam “porque as pessoas sentem gosto em juntar-se”. Juntar-se, encontrar-se. Mas, quem encontra com quem? A esperança encontra-se com a realidade? O desejo encontra-se com o mundo? E as pessoas, encontram-se com as pessoas? Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente encontra-se com as coisas?

O mundo inteiro tende a transformar-se em uma grande tela de televisão, na qual as coisas se olham, mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos.

8 de fevereiro de 2009

O IMPÉRIO DO CONSUMO - 4ª PARTE

Eduardo Galeano

As massas consumidoras recebem ordens em um idioma universal: a publicidade conseguiu aquilo que o esperanto quis e não pôde.

Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que a televisão transmite. No último quarto de século, os gastos em propaganda dobraram no mundo todo. Graças a isso, as crianças pobres bebem cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite e o tempo de lazer vai se tornando tempo de consumo obrigatório. Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisão, e a televisão está com a palavra. Comprado em prestações, esse animalzinho é uma prova da vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos.

Pobres e ricos conhecem, assim, as qualidades dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos ficam sabendo das vantajosas taxas de juros que tal ou qual banco oferece. Os especialistas sabem transformar as mercadorias em mágicos conjuntos contra a solidão. As coisas possuem atributos humanos: acariciam, fazem companhia, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o carro é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.

Os buracos no peito são preenchidos enchendo-os de coisas, ou sonhando com fazer isso. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas escolhem você e salvam você do anonimato das multidões. A publicidade não informa sobre o produto que vende, ou faz isso muito raramente. Isso é o que menos importa. Sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias. Comprando este creme de barbear, você quer se transformar em quem?

7 de fevereiro de 2009

O IMPÉRIO DO CONSUMO - 3ª PARTE

Eduardo Galeano

O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde quantidade com qualidade, confunde gordura com boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a “obesidade mórbida” aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou 40% nos últimos dezesseis anos, segundo pesquisa recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado. O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free, tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar desce do carro só para trabalhar e para assistir televisão. Sentado na frente da telinha, passa quatro horas por dia devorando comida plástica.

Vence o lixo fantasiado de comida: essa indústria está conquistando os paladares do mundo e está demolindo as tradições da cozinha local. Os costumes do bem-comer, que vêm de longe, contam, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade e constituem um patrimônio coletivo que, de algum modo, está nos fogões de todos e não apenas na mesa dos ricos. Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão sendo esmagadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida em escala mundial, obra do McDonald’s, do Burger King e de outras fábricas, viola com sucesso o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.

6 de fevereiro de 2009

O IMPÉRIO DO CONSUMO - 2ª PARTE

Eduardo Galeano

Dize-me quanto consomes e te direi quanto vales.

Esta civilização não deixa as flores dormirem, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores estão expostas à luz contínua, para fazer com que cresçam mais rapidamente. Nas fábricas de ovos, a noite também está proibida para as galinhas. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar.

Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem metade dos calmantes, ansiolíticos e demais drogas químicas que são vendidas legalmente no mundo; e mais da metade das drogas proibidas que são vendidas ilegalmente – o que não é uma coisinha à toa, quando se leva em conta que os EUA contam com apenas cinco por cento da população mundial.

Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade, e a uniformidade é que manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todas as partes suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora do que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

5 de fevereiro de 2009

O IMPÉRIO DO CONSUMO - 1ª PARTE

Eduardo Galeano

A cultura de consumo faz muito barulho, assim como o tambor, porque está vazia; e, na hora da verdade, quando o estrondo cessa e acaba a festa, o bêbado acorda, sozinho, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos quebrados que deve pagar.

A expansão da demanda se choca com as fronteiras impostas pelo mesmo sistema que a gera. O sistema precisa de mercados cada vez mais abertos e mais amplos tanto quanto os pulmões precisam de ar e, ao mesmo tempo, requer que estejam no chão, como estão, os preços das matérias-primas e da força de trabalho humana.

O sistema fala em nome de todos, dirige a todos suas imperiosas ordens de consumo, entre todos espalha a febre compradora; mas não tem jeito: para quase todo o mundo esta aventura começa e termina na telinha da TV.

A maioria, que contrai dívidas para ter coisas, termina tendo apenas dívidas para pagar suas dívidas que geram novas dívidas, e acaba consumindo fantasias que, às vezes, materializa cometendo delitos. O direito ao desperdício, privilégio de poucos, afirma ser a liberdade de todos.

29 de janeiro de 2009

2020

Carlos Edu Bernardes

- Filho, acorda! Papai já está indo para a nossa Santa Empresa. Coloque sua roupa com colete à prova de gente e venha ver como o papai ensinou os empregados a remover os cadáveres da porta da garagem.
- Já vou, pai...
- Você viu meu carro novo?
- Vi. Que beleza, hein! Ele já vem equipado com blindagem e armas de grosso calibre?
- Claro! Ou você pensa que a evolução humana não cria maravilhas a cada dia?
- É... Mas, pai. Ontem à noite você disse que ia me levar hoje para conhecer uma árvore.
- Sim, mas é mais tarde, depois da sua aula de 'Como Ficar Biliardário em 10 Anos' pela internet. Mesmo porque o jatinho ainda não saiu da revisão.
- Tá... Outra coisa, pai. Você disse também que antigamente existia uma tal de escola, faculdade, onde as pessoas iam estudar?
- Sim, mas isso é coisa do passado. Quem precisa conviver com todo tipo de gente se hoje podemos aprender tudo que é necessário numa casa tão bem aparelhada como a nossa?
- Sei.
- Além do mais, é não dando chances ao outro de entender nossas ideias é que vamos dominar cada vez mais a arte do negócio e do mercado. Lembre-se eu estou preparando você para ser um dos dominadores do mercado, como eu.
- Ok.
- Mas anda logo, pois ontem eu tive que disparar muitas balas para limpar a frente da casa matando aqueles pedintes odiosos. Anda, filho! Tempo é dinheiro! Você sabe muito bem disso, pois já tem seis anos!

15 de janeiro de 2009

CABUM!

Carlos Edu Bernardes

Hoje, digitando um texto no word (aquela beleza de software...) eu, sem querer, enfiei os dedos entre as teclas e, imediatamente, o que estava sendo digitado em português (novamente engatinhando com a reforma ortográfica) passou para o grego, ou algo parecido - não me espantaria se fosse uma linguagem extraterrestre. Apesar disso já haver acontecido outras vezes e com outros resultados até risíveis, dessa vez um calafrio me passou pela espinha: bom, com a quantidade de máquinas interligadas no mundo todo através da internet, com conexões vampiras para tudo quanto é lado (graças aos fdps dos hackers nocivos) quem pode garantir que alguém lá no Pentágono ou na ilha de Gólgota digitando e enfiando o dedão num control qualquer não pode acionar o disparo de uma ogiva nuclear por aí ou ocasionar um blackout no Ceilão? Eu hein! É, galera, o caos tem tantas vestimentas que às vezes nem sei se sou eu mesmo quem está digitando essas linhas... Ôpa, $%$##@@#%&&*())(*$$%$#@@!...

6 de janeiro de 2009

O NEGATIVO DE JACK

Carlos Edu Bernardes

Chegou em casa e lavou os óculos com muita raiva: na verdade, queria esfregar com força os próprios olhos. Queria ser um daqueles raspadores de outdoors para apagar com uma espátula raspenta todo o tipo de imagem dela que ainda estava gravada nas suas retinas. Esfregou-os com álcool também. Depois sentou-se na sala e pegou papel e caneta. Escreveu: Marina, Marina, Marina. Destacou o papel do bloco e, pacientemente, rasgou-o em mil pedacinhos, tendo o cuidado de separar cada letra num pequeno pedaço: esquartejá-la para que ela desapareça mais facilmente no vento louco do verão.

Pegou a caixa de fotografias e separou tranqüilamente cada uma de suas últimas namoradas. Um calafrio subiu-lhe pela espinha: lembrou-se de que as melhores fotos de Marina estavam com um conhecido, artista plástico, para montagem de um painel a ser colocado na sala! Vestiu um casaco e entrou no carro, zarpando a mil por hora. O sujeito não estava. Quebrou a porta e entrou no ateliê. Viu o painel na parede oposta: lindo! Como Marina estava bela! Todas as fotos canalizando-se numa passarela de Marinas que deslizavam na frente dos seus olhos.

Não sentiu a primeira mordida dos Dobermans. Nem teve tempo de reação para escapar da segunda. Morreu dilacerado, rasgado em mil pedaços, bem na frente de uma Marina linda... e inteira.

3 de janeiro de 2009

NÃO ME TIRES O QUE NÃO PODES ME DAR

Carlos Edu Bernardes

Diógenes, o cínico (404-323a.C.).

Diógenes é assinalado, em muitas histórias da filosofia, como o filósofo que desprezou ostensivamente os poderosos e as convenções sociais, nisso nóis inté parece. Nasceu em Sínope, que não é nada perto de Monte Alegre de Minas. Foi discípulo de Antístenes (c.444-365 a.C.), fundador da filosofia cínica e eu discípulo do vôvô Fenelon Bernardes (1889-1992), fundador da fivelada lombálgica.

Como todos os cínicos Diógenes desprezava as idéias gerais e as convenções sociais, negando a possibilidade da própria ciência, coisica que num faço nem! Ficar sem ouvir Beatles? Humpf!

Diógenes ficou associado a diversos episódios que exprimem as suas idéias éticas, as únicas a que dava verdadeira importância. A única forma de vida aceitável seria a conforme à natureza, tudo o mais não passava de vento, ou seja, peido.

Conta-se que Alexandre da Macedônia, o grande imperador da antiguidade, ao encontrá-lo lhe teria perguntado o que mais desejava. Acontece que devido à posição em que se encontrava, Alexandre fazia-lhe sombra. Diógenes, então olhando para o sol afirmou: "Não me tires o que não me podes dar!".

Levando ao extremo esta atitude de desprezo pelas convenções sociais, Diógenes, tinha como casa um barril e vestia-se de trapos. Perambulava pela cidade com uma lamparina acesa, mesmo de dia, afirmando a quem o interrogava que procurava "um verdadeiro homem". Aquele que vivia de acordo com a natureza.

Já Fenelon percorria a cidade com um barril vazio a procura de mais cachaça. Quando não encontrava tomava Biotônico Fontoura misturado em álcool e metia bala de cartucheira para todo lado, danificando a natureza e as orelhas de transeuntes desavisados
.

Completemos com James Geary, que nos diz: "Nunca confie em um animal; não importa quantas patas ele tenha”

10 de dezembro de 2008

SOCIEDADE EM DECADÊNCIA

Haroldo P. Barboza *

A sucessão de escândalos nacionais envolvendo figuras deprimentes da nossa política forma uma pirâmide de lama fétida que está corroendo as estruturas das entidades ora desacreditadas.

Principalmente as câmaras públicas seguidas de perto pelos palácios regionais da Justiça. E atropelando por fora, chegam os sindicatos que outrora defenderam os interesses dos trabalhadores e que agora defendem os empresários. O desrespeito está se alastrando sem controle entre os jovens que passam a acreditar que está tudo liberado e a desesperança de seus responsáveis está aumentando por perceberem que o futuro de seus herdeiros se mostra mais horrendo do que o suportável apesar de algumas tentativas de colocá-los num bom caminho.

As famílias que se acomodaram enfrentam uma luta desigual contra os amigos de esquina que distribuem drogas entre seus herdeiros largados sob a vigilância de games explosivos. Por esta tendência, jovens agridem índios, domésticas, lésbicas, gays e assemelhados. Fumam drogas a céu aberto, estupram menores e executam corridas noturnas de carros nas ruas das cidades na certeza de que nada acontecerá, pois a Justiça está sucateada e é fácil de ser "amaciada". Basta-nos ver com que facilidade os perigosos detentos usam celulares em suas celas nas prisões, como se fossem seus escritórios.

Adolescentes que queimam índios e afogam colegas nas piscinas estão livres e alguns já montaram consultórios! Só falta descobrirmos dentro de quantos anos (até quando a mídia pesada puder iludir os esfomeados) a convulsão social violenta eclodirá em territórios sacrificados penalizando milhares de inocentes arrastados para uma luta que não desejaram e não terão recursos para conter. Nem salvar seus herdeiros desprotegidos.

E mesmo embutido neste cenário de horror, certamente a tv lançará um "show da realidade" dentro de algum prédio abrigando habitantes desesperados pelas balas cruzando sobre suas cabeças disparadas por meia dúzia de meliantes que dominam as favelas inchadas que agora contornam os luxuosos condomínios. O último sobrevivente receberá um polpudo prêmio de U$ 1 MI.

Deve ser suficiente para cobrir as despesas com os enterros dos parentes falecidos.
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* Haroldo P. Barboza - Vila Isabel / RJ - Autor do livro: Brinque e cresça feliz

9 de dezembro de 2008

RIMAR RIMEI

Carlos Edu Bernardes

pode parecer dissonante
ou sem cabimento
dizer que a rima num poema
preferencialmente
só agrada ao declamante

a mensagem por não ter rima
não perde esteticamente
a plasticidade do corpo que a circunda
e se perder quero deixar-me levar por cima
ao gozo profundo nessa sensação dela oriunda
e esperar a título de gozação
na beatitude dos saciados que me fascina
uma negativa descrente da inspiração
geométrica quadrada sem bunda

o escritor literalmente ofendido
e que isso não confirma
atesta a inflexibilidade do seu estilo
pois é tentando ser milimetricamente ouvido
que ele não consegue dizer poeticamente
aquilo

5 de dezembro de 2008

O QUE É ESSENCIAL PARA VOCÊ?

Carlos Edu Bernardes

Imagine se isso ao redor do barco fosse dinheiro. O rio estaria melhor? Essa é uma questão difícil de ser assimilada pelo ser humano, principalmente o contemporâneo. É impressionante a velocidade da adoração aos bens materiais de algumas décadas para cá. Desde a chegada do capitalismo a todos os recônditos do mundo estamos presenciando, apreensivos, o desaparecimento de identidades e a extinção gradativa de hábitos e pensamentos que não levem puramente a um resultado material, financeiro. E essa velocidade tirou o gosto de se percorrer um caminho, de viver cada momento, de separar alguns momentos na vida para brincar com uma criança ou reparar no pôr-do-sol, em prol apenas de um resultado rápido e concreto. Ok. O dinheiro é importante, mas não é essencial como a água ou o ar, ainda possíveis de fazerem parte do nosso dia-a-dia e percebidos como valores primordiais, e imensuráveis, que têm. Uma carreira de sucesso (o que é o sucesso?) é importante, mas ter tempo para a família e filhos é essencial. Possuir um carro incrível para locomoção e lazer também é muito importante, mas ter com quem se encontrar e ser bem recebido nos lugares em que se chega, mesmo a pé, é essencial.

Talvez por isso o sistema vigente, predador, violento e excludente (esse capitalismo que vemos no controle de poucos tem pouca coisa do real capitalismo, onde oportunidades e direitos são iguais e onde a justiça é para todos) nos nuble o horizonte do bem estar. E nós o endossamos. E, zumbis, não nos empenhamos em ouvir a voz interior que nos pede coisas simples e essenciais, e promovemos o desaparecimento de vidas que também sequer tentaram pensar que ter as coisas, simplesmente, e cada vez mais, não gera sentimentos essenciais em que se apóia e regozija a alma. Cegamente vamos em busca de posses materiais, a qualquer preço, sobre qualquer valor, e, após obtê-las, olhamos ao redor e não entendemos o porquê de estarmos praticamente sozinhos e com uma incômoda sensação de vazio...

4 de dezembro de 2008

CONSUMO "CONSCIENTE"...


26 de novembro de 2008

LER

Carlos Edu Bernardes

Tudo começou por volta do meu segundo dia de vida. Consegui ler: "Berço 3". Depois, ao ser levado ao quarto onde mamãe estava, li no peito (que peito!) da enfermeira no crachá: "Deise Albuquerque - Enfermeira".

Ao chegarmos na porta do quarto lá estava uma botinha de lã pendurada com um papelzinho:"Carlos Eduardo chegou!".

Depois, noutros braços, li nos olhos da mulher que me segurava a poesia mais linda gravada na retina de quem acabava de ser mãe pela primeira vez. Ela é intraduzível. Olhe nos olhos de sua mãe para relembrá-la.

Ao lado de flores e bombons consegui vislumbrar um pequeno lembrete embaixo de algumas pétalas: "Obrigado por me dar um companheiro. Você, cada dia mais linda, já precisa de dois homens para protegê-la. Nasceu meu filho, renasci pai".

Depois fui lendo sem parar e descobri que se podia escrever com lápis-de-cor também. Li bulas de remédios e contas de armazém. Cebolinha, Mônica, Homem-Aranha e Tex. Batman, Mandrake, Fantasma, Bolota, Brotoeja, Gasparzinho, Brasinha, Senhora de José de Alencar, Éramos Seis de Dupret, O Escaravelho do Diabo, Os Meninos Da Rua Paulo, Dom Casmurro, Playboy, Ele & Ela, O Alquimista (confesso...), toda a coleção de Carlos Castañeda, O Nome da Rosa, O Pêndulo de Foucault, e tantas outras coisas, tantas outras coisas, tantas outras coisas... Carlos Drummond, Ferreira Gullar, Leminski, Charles Baudalaire, Al-Chaer, Yêda Schmaltz...

20 de outubro de 2008

REFLEXÃO SOBRE A PERCEPÇÃO DE VALOR INTRÍNSECO

Direto da rede caótica:

Aquela poderia ser mais uma manhã como outra qualquer. Eis que o sujeito desce na estação do metrô. Vestindo jeans, camiseta e boné, encosta-se próximo à entrada, tira o violino da caixa e começa a tocar com entusiasmo para a multidão que passa por ali, bem na hora do rush matinal.

Mesmo assim, durante os 45 minutos que tocou, foi praticamente ignorado pelos passantes. Ninguém sabia, mas o músico era Joshua Bell, um dos maiores violinistas do mundo, executando peças musicais consagradas num instrumento raríssimo, um Stradivarius de 1713, estimado em mais de 3 milhões de dólares.

Alguns dias antes Bell havia tocado no Symphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custam a bagatela de 1000 dólares.

A experiência, gravada em vídeo, mostra homens e mulheres de andar ligeiro, copo de café na mão, celular no ouvido, crachá balançando no pescoço, indiferentes ao som do violino. A iniciativa realizada pelo jornal The Washington Post era a de lançar um debate sobre valor, contexto e arte.

A conclusão: estamos acostumados a dar valor às coisas quando estão num contexto. Bell era uma obra de arte sem moldura. Um artefato de luxo sem etiqueta de grife.

Esse é um exemplo daquelas tantas situações que acontecem em nossas vidas que são únicas, singulares, e a que não damos a menor bola porque não vêm com a etiqueta de seu preço. O que tem valor real para nós, independentemente de marcas, preços e grifes? É o que o mercado diz que você deve ter, sentir, vestir ou ser?

Essa experiência mostra como na sociedade em que vivemos os nossos sentimentos e a nossa apreciação de beleza são manipulados pelo mercado, pela mídia, e pelas instituições que detém o poder financeiro.

Mostra-nos
como estamos condicionados a nos mover quando estamos no meio do rebanho. Verdadeiros seguidores da flauta de Hamelin do sistema.

VÍTIMAS DO MERCADO

Marta Vitória de Alencar *

Você já parou para pensar por que inúmeras vezes desejamos algum objeto que não é essencial para a nossa vida? A filosofia pode ajudá-lo a entender. Trata-se de um desejo permanentemente alimentado pela indústria e pelo mercado que necessitam de consumidores para sobreviver, segundo Karl Marx (1818 - 1883), filósofo e economista que produziu uma teoria para explicar a gênese do capitalismo. Para Marx, estabelecemos com os produtos fabricados no sistema capitalista uma relação que ele chama de fetichismo da mercadoria.

Vamos entender como é isso: imagine que sou um operário e vendo minha força de trabalho para o dono da fábrica, o capitalista. Transfiro para ele a propriedade do produto de meu trabalho. O valor dos objetos que produzo é superior ao que recebo como salário. Mas eu não tenho uma real dimensão de quanto valor produzi, porque o processo é alienante: o produto de meu trabalho não me pertence e, por isso, não me reconheço nele. O que é reforçado pela fragmentação da produção: só executo um componente do produto. Suponhamos que trabalho numa fábrica de chip de celulares. O que ocorre quando vou comprar um desses aparelhos é a discrepância entre o que a loja cobra por ele e o que posso pagar, além de um sentimento de frustração e impotência.

Não temos plena consciência disso, mas, no fundo, essa situação desperta a crença de que o celular vale mais do que nós. Não sei como nem por quê, mas o celular custa mais do que posso dar por ele - afinal, meu salário deve pagar primeiro as necessidades básicas (moradia, alimentação, transporte, saúde, vestuário, educação e lazer, se sobrar algum), depois virão os supérfluos. Só que, muitas vezes, os desejos falam mais alto e nos endividamos para poder fruir do prazer de objetos de menor necessidade.

O produto aparece como uma realidade autônoma sem a qual a vida fica meio sem graça. É como se a posse do celular me animasse e me enchesse de alegria. Como se, sem objetos que dão algum status, nos tornássemos um ninguém, uma engrenagem apenas. Por isso, passamos a ter uma relação de desejo e de adoração com as mercadorias. Então, elas se tornam um fetiche. Pelo trabalho, construímos o objeto, definimos sua utilidade e lhe atribuímos valor. Com o sistema capitalista, a relação se inverte e agora é o objeto que passa a definir quem somos e quanto valemos.

Entender essa relação nos permite saber como muitos de nossos desejos são produzidos e, com isso, ter clareza para definir nossas prioridades - como e com o que gastamos o nosso dinheiro.
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* Marta Vitória de Alencar é professora de Filosofia da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da USP.

6 de outubro de 2008

CARTA PARA A MANA

Carlos Edu Bernardes

Mana, a única realidade que presta é a realidade do coração. Cecília Meirelles estava certa ao dizer que a vida só é possível se for reinventada. O que é essa realidade em que vivemos senão a disposição concreta dos desejos primários e brutos da maioria das pessoas? A gente sempre teve a certeza de que a compreensão, o amor, a aceitação e a simplicidade seriam questões óbvias de chegada. E serão. Mas não nesse século, não nesse milênio.

Então, que porta adentraremos para flertar com esse longínqüo futuro e fazermos precocemente, e puramente, luzir a fagulha desse tempo que virá? Sem dúvida é a porta da arte, da literatura, da filosofia e da dignidade de nunca perder a infância. Como sempre dizia Fernando Sabino: quando eu crescer eu quero ser menino!

Beijo e picolé de queijo!

27 de setembro de 2008

DURMA COM UM BARULHO DESSES...

Carlos Edu Bernardes

Hoje falarei de uma outra nata de imbecis. Daquela que instala um alarme no seu estabelecimento comercial e, para 'reduzir custos', não contrata uma empresa de segurança para fazer o monitoramento. E qual é o resultado? Os alarmes disparam por algum motivo qualquer - veículos com som muito alto, ventos mais fortes, etc... (claro, sempre à noite ou nos finais de semana) e esguelam até percebermos que hoje se fabricam baterias que não se esgotam, e, tchan-tchan-tchan, os proprietários do local não vão checar o que está havendo!

É realmente incrível depararmos com certas mentalidades nesse caos progressivo que está virando a nossa cidade. Várias residências, um hospital e edifícios sendo incomodados por um barulho insistente, chato, inoportuno e o responsável (?) sequer tem como saber se está sendo assaltado ou não! Dá para entender?

Três vivas à educação, ao respeito e à cidadania, onde que que elas tenham se escondido hoje em dia!

22 de setembro de 2008

ANIMAIS NO VOLANTE

Carlos Edu Bernardes

Conforme a cidade cresce, mais chances temos de topar com um número cada vez maior de imbecis. E a gama desses energúmenos é variadíssima! Neste post falarei um pouco (senão definharemos na frente da tela) dos imbecis do trânsito, fauna cada vez numerosa, que sentam atrás de um volante e fazem questão de cortar todo mundo numa velocidade absurda, mesmo que tenham que parar em cada esquina, pois quase não há esquinas aqui na cidade sem um semáforo. Dia desses, acreditem, um médico muito famoso aqui da capital ficou dando sinal de luz para me ultrapassar numa rua muito movimentada. Ele passou voando e... parou no semáforo! Parei tranquilamente do lado, olhei e percebi que ele estava com 3 filhos pequenos no banco traseiro, provavelmente para deixá-los na escola. Abri o vidro e educadamente perguntei para ele se adiantava dirigir naquela velocidade, com crianças no carro, numa rua tão movimentada e cheia de semáforos. Ele simplesmente sequer olhou para mim. É isso aí, Doutor! Então o semáforo abriu e lá foi o exemplo-da-sociedade de novo a toda velocidade... Dou conta?

Noutro dia, mais um débil mental (é, amigo, com tanto carro na rua esse tipo de bicho é figurinha bofeira: tá pra todo lado!) ficou buzinando para que eu aumentasse a velocidade, sendo que havia dois carros na minha frente e em menos de 50 metros percebia-se um semáforo que acabara de entrar no sinal vermelho. Fiz que não ouvi, mas o beócio cortou-me pela direita, reduziu a velocidade, virou as fuças para o meu lado e relinchou: " - Tudo isso é frustração de carro velho?". Eu olhei para o semblante do semovente, que se achava num desses carrinhos de plástico e respondi: " - Meu carro é antigo, velho é o seu!". E fechei o vidro, calmamente. Será que ele entendeu? Duvido.

Não é fácil não, gente!