29 de maio de 2009

30 de abril de 2009

28 de abril de 2009

OPRESSÃO

Carlos Edu Bernardes

Moribundo pelas ruas vou ziguezagueando com outras ruas.

Procura-se o teu coração.

A mão, sóbria, segura a flor branca, que reluz direto, com outros brancos, para a cabeça dos homens corruptos. O rosto, desfigurado, já não mais reconhece o sonho. Quem tu és mesmo? O que dizia o meu país?

Desnorteado fui te perdendo na extinção dos valores humanos e na anulação dos meus direitos de cidadão. No meu rosto númerico dançam a raiva e o medo. Não distingo mais bandeiras, nem sindicatos, nem famílias. Lágrimas febris escorrem e caem na tua foto pálida, teus olhos que foram meus, hoje distantes como a lembrança de uma escola em cada bairro.

Balbucio o teu nome dentro da flor, fantasma mártir das histórias de luta, e, reduzido a quase nada, não me lembro sequer de uma estrofe do hino nacional.

23 de abril de 2009

MARAVILHAS MODERNAS

Carlos Edu Bernardes

1) Sempre que chego em casa minha mulher está assistindo ao seu programa religioso favorito: o Shoptime.

2) Estou tão obeso que quando atravesso a faixa de pedestres o fotossensor registra.

3) Meu filho, um dia desses, me ligou através do celular (que é também filmadora e equipado com internet, com previsão do tempo, com games), e me perguntou se ele podia ir almoçar em casa depois da aula. Eu lhe disse, no meio de uma reunião importantíssima, que não existem mais cozinhas em lares. E ele, prontamente perguntou: - Hey, Joe! O que é isso: lares?

4) O cachorro lá de casa não perde um capítulo da telenovela das oito.

5) Meu primo ia iniciar um namoro com a filha de um político mas desistiu. Ele disse que só para entrar no processo licitatório tinha que dar cemzim de propina.

21 de abril de 2009

BRILHO ETERNO DE UMA MENTE SEM LEMBRANÇAS

Carlos Edu Bernardes

Este filme é, a meu ver, o retrato do que deveria ser, na atualidade, o relacionamento de um homem e uma mulher, no eterno imbróglio de se darem bem. Acredito que a película veio para ajudar a desbancar Romeus e Julietas, Cinderelas, Love Histories e Gatas Borralheiras dos ocos dos seus pedestais: perversidades impostas a várias gerações no autoritarismo de amores exigentes e inflexíveis, que, a guisa de ideais, arrebentaram incontáveis relacionamentos e impulsionaram a indústria dos antidepressivos, da literatura da tragédia amorosa humana e dos divãs encharcados de lágrimas – para não falar nos suicídios bem reais.

Neste filme não temos panos-de-fundo políticos ou aristocráticos, como os Capulletos e Montechios sentados nos seus tronos de comando para a prevalência das suas vaidades. Nada de frases monolíticas, estúpidas mesmo, como “amar é jamais ter que pedir perdão”, ou cavalos puros-sangues ao largo, ou serviçais (indubitáveis escravos) patéticos e afetados dando a própria vida pela felicidade dos patrõezinhos, ou de vestimentas suntuosas de um mundo que só podíamos vislumbrar pela janela da nossa dada mediocridade. O amor não era para qualquer um, tava pensando o quê?

No BRILHO não há nem o príncipe encantado nem a princesa perfeita. Depois de algum tempo de relacionamento eles querem se ver livres um do outro (talvez num dejà-vu das histórias ouvidas sobre a ‘perfeição’ do amor), mas aos poucos se rendem, percebem que o par possível só pode ser o ser humano na sua mais oscilante acepção: fraco, indeciso, terno, bocó, único, forte, titubeante, bruto, sublime, terno, convicto, genial, carente, ridículo, blá, blá, etc., e sem o poder de dominar a verdade pura. Ou seja, nóis na fita, ou, we on the tape.

O BRILHO nos mostra cruamente o quanto é importante o relacionamento entre pessoas que se olham nos olhos desde o início e, interessadas, vislumbram a possibilidade de perscrutar a nudez da outra alma – sem segundas intenções e sem beirar à pieguice, ou mesmo a inocência no seu estado mais manipulável. Sim. E não é necessário ir conhecendo o outro somente após estacionar os Audis-carruagem, despir os Armanis, lavar os Chanel e descalçar os Carnellos, de cristal ou não. Ademais se houver arestas, e há, elas são aparadas sem a anestesia de músicas pasmacentas e sem clichês moralistas. Tudo em ambientes reais, onde não se veem assinaturas de grifes ou monumentos famosos, que tentavam comprar o quadro para referendar que o amor prefere lugares detalhadamente estudados. Não. A beleza das cenas insinua-se nos cabelos desgrenhados, mal-tingidos e em barbas por fazer, dentro de um carro amassado. Ali a única arma de sedução é estar vivo.

O BRILHO revela também o quanto é inútil camuflar. A vida por si não propicia terreno para o advento de ventosas-garras da mentira ou da manipulação antinatural (mais cedo ou mais tarde elas se despregam ou se desmancham. Caso perdurem, já é patológico). É inócuo tentar apagar o que ficou gravado no coração. Não adianta utilizar despojos e trejeitos de outrem para conquistar um alguém já tocado pelo outrem (mesmo que os aparelhos e utensílios sejam exatamente os originais e o itinerário da 'conquista' milimetricamente igual). Nesses casos o ente prevalece sobre o ser.

Por algo que fica inexplicável, pois inexplicável é, a aceitação mútua passa ainda pelo crivo de ouvir um do outro o quanto se detesta certas peculiaridades e atitudes, certas manias e idéias, mas, ora, sem mais neuroses, eles querem ficar juntos.

O BRILHO é um filme que finalmente nos mostra a possibilidade de sermos aceitos e de podermos viver ao lado de outra pessoa simplesmente porque algo em nós pede. Isso é muito bom. É límpido; é sincero e gerador de lembranças impossíveis de se apagar. Ou não.

13 de abril de 2009

SOU ATUAL = SOU MAU

Carlos Edu Bernardes

Veja pela charge acima a realidade dos dias. A maioria das pessoas (mesmo onde Cristo 'era' louvado) já quase não conhece mais esse Homem. Não sou religioso, mas a figura de Cristo sempre remeteu o ser humano para o lado bom da humanidade - coisa questionável hoje em dia esse tal de 'lado bom'.

Exemplo: sábado passado eu estava assistindo meu Vascão tomar de 4 do Botafogo e no intervalo da transmissão entrou uma nova propaganda de um mais um lançamento de carro. Nela, um sujeito e a mulher estão parados no sinaleiro (farol, semáforo) com seu carro e ao lado deles surge o novo veículo. Realmente um belo carro. O sujeito olha para a mulher (que também fica surpresa com a beleza do carrão) e os dois fazem uma expressão de total adoração, analisando a novidade. Depois de alguns segundos, o vidro do possante se abre (porque não dá mais para ver o seu interior, já não mais sabemos quem está dentro dos veículos - os carros são bólidos indevassáveis e não interessa se há um ser humano lá dentro - ninguém dá mais 'bom-dia' no trânsito) e a própria mulher do sujeito que admirava o carro está no banco do carona! Ela dá um tchauzinho para o 'trouxa' e a maravilha motorizada segue em frente! Daí vem a mensagem: "Este carro é para poucos... e maus!"

Portanto, filósofo inútil que sou, fico imaginando quais outras mais consequências que teremos (como se já não bastassem a quantidade de acidentes de trânsito, idosos sendo maltratados e mortos por filhos e netos, escolas onde professores são agredidos e humilhados, etc.), até quando teremos o enaltecimento do 'mau', do 'aproveitador', do 'gostosão-milionário-a-qualquer-custo'... Até quando será veiculada a mensagem de quê o que vale na vida são coisas puramente materiais e elas podem ser trocadas tranquilamente por pessoas. E a mulher? A cada dia está mais prostituída nesse tipo irresponsável e perverso de marketing - e não fala nada.

Então, Cristo hoje deve ser mesmo muito menos conhecido do que os Beatles (genial inversão feita pelo chargista sobre o episódio acontecido em 1966, quando John Lennon declarou que os Beatles eram mais populares do que Jesus Cristo), e, com toda a certeza, muito menos conhecido do que Ronald McDonald's (pesquisa feita nos EUA, apontaram que crianças, ao verem fotos de personalidades, não reconheceram Cristo, o Papa, Martin Luther King, Madre Tereza de Calcutá e outros bons, porém não titubearam ao reconhecerem o ícone da comida plástica).

Fico então pensando o quanto Jim Morrison (do grupo The Doors, e não dos Beatles) foi um profeta! Ele já previa, nos anos 60, o auge da hipocrisia, da desordem, do caos, do excesso em todos os pontos da vida. Gritava para seu próprio público dizendo ser ele um bando de escravos do sistema, que qualquer coisa jogada nas suas goelas geraria aplausos. E arrematava: - "Quantos de vocês sabem que estão vivos?".

Porém o sistema diz que está tudo bem. Legal! Vai uma cerveja com uma mulher oferecida do lado aí?

9 de abril de 2009

TRÂNSITO

Carlos Edu Bernardes

Hoje não é possível percorrer mais do que uma esquina na nossa cidade sem notarmos estilhaços de vidros pelas calçadas e ruas, sinais de mais um acidente de trânsito.

A urgência das empresas em realizar seus serviços, na tentativa de superar concorrentes visando à obtenção de uma receita que nunca viabiliza grande parte delas mesmas, depredada diariamente pela fome de impostos de um governo cuja bebida principal deve ser sim o Biotônico Fontoura, nos revela que a grande maioria que está nos volantes dos veículos, e principalmente nos guidons das motos, luta diariamente contra o tempo, pressionada para desempenhar a qualquer custo a sua tarefa - quer seja a entrega de pizzas, materiais de construção ou o leva-e-trás de passageiros - também apressados na mesma intensidade.

O que vemos são motoristas ávidos por conseguir uma "vantagem" pelas ruas, monitorando locais onde não há sensores eletrônicos, como se ali fosse liberado fazer o que bem entender, já que exercer a sua moralidade é luxo em tempos de enaltecimento do "inteligente e produtivo".

Sociedade bem equipada instrumentalmente não significa sociedade consciente e cidadã. Por exemplo: nesta quinta-feira fui levar o carro para revisão numa concessionária no Setor Sta. Genoveva e, saindo da Marginal Botafogo para pegar a Independência no sentido Aeroporto, nenhum carro ao meu lado parou no sinal fechado e quem estava atrás de mim buzinou. Senti-me como se eu estivesse errado...

Essa competição predatória, onde o valor da educação é suplantado pelo resultado econômico, que paradoxalmente está quase sempre está no vermelho, tem no trânsito um dos seus principais campos-de-guerra e acaba por nos proporcionar cada vez menos tempo para pensarmos no próximo e nas consequências de vidas ceifadas ou deformadas - vide reportagens quase que diárias nos jornais sobre o preço dos tratamentos aos acidentados. Isso para não dizer que Goiânia é a terceira cidade do país com maior número de motoristas alcoolizados ao volante...

Mas como contabilizar o sofrimento dos feridos e o desamparo de tantos filhos de pais que sucumbiram nas nossas ruas caóticas? A isso chamamos progresso?

6 de abril de 2009

CRUELDADE E DEVASSIDÃO

Gaudêncio Torquato *

Quem quiser saber acerca da saúde de uma sociedade, basta verificar seus costumes, sua moralidade. Por essa observação de Nietzsche, em Genealogia da Moral, o mundo está bastante doente e o Brasil, conhecido pela permissividade na esfera dos costumes, já está na UTI. Prova chocante, ao lado de tantas outras que se multiplicam nas vitrines globais da violência e do sexo, é um jogo japonês de computador, de nome Rapelay, que simula assédio sexual, estupros, pedofilia e aborto, e que se encontra à venda nas ruas ou pela internet, escapando aos olhos das autoridades e engrossando um pacote de bugigangas de um corrosivo PIB pirata.

Já não bastasse a violência desmesurada, caprichada nos detalhes de uma técnica que combina roteiro, precisão do movimento, ritmo, cores e desfecho surpreendente, sob rompantes de satisfação dos participantes, os jogos simulam situações que deixam de ponta-cabeça os valores básicos da Humanidade.

Ao escancarar a violência de um homem molestando uma mãe num trem, consumando o estupro num parque, fotografando a vítima, obrigando-a a chegar até suas filhas, que serão violentadas e engravidadas, o tal jogo japonês nada mais faz que implodir o edifício civilizatório. O arremate dessa escatologia de horrores é o ato de convencimento para as filhas abortarem. Jamais se viu agressão tão explícita a seres e emblemas que simbolizam a pureza e a beleza da vida humana.

Na verdade, esse “divertimento”, que pode ser adquirido ao custo de alguns reais, é uma pequena amostra do paradigma do caos, que Samuel P. Huntington descreve como “quebra da lei e da ordem em todo o mundo, onda global de criminalidade, máfias transnacionais, cartéis de drogas, violência étnica e religiosa, crescente número de viciados, debilitamento geral da família, declínio na confiança e na solidariedade social em muitos países”. A monstruosidade embutida no apetrecho nipônico merece profunda reflexão, a começar pela dificuldade de pais de família para desviar seus filhos do lixo da indústria do entretenimento. (E o que dizer quando os próprios pais são consumidores dessa modalidade diversionista?) Quando uma semente encontra terra fértil, germina. E a nossa terra, convenhamos, tem muito adubo para fazer prosperar as sementes da globalização. Cerca de 43 milhões de brasileiros já acessam a internet. O brasileiro lidera o ranking de navegação na rede – média de 24 horas mensais de conexão, secundado pelos japoneses, franceses e norte-americanos.

Um dos efeitos perversos da globalização – acentuados pela internet – é o rompimento das fronteiras nacionais. Como separar o joio do trigo? Os Estados modernos não têm sido eficazes na tarefa de coibir a pirataria ou controlar as redes eletrônicas da internet. Legislação de controle inexiste. Quanto mais permissiva a cultura de uma nação e tênue a fisionomia institucional, menos força terá o Estado para fixar eixos morais. Esse é o caso do Brasil, bastando ver a expansão do império da violência em algumas capitais.

Há dados que causam perplexidade. No Brasil, são 165 vítimas por dia, 7 por hora, segundo estudo da Associação Brasileira de Proteção à Infância e à Adolescência. As barbaridades aparecem quase todos os dias. Uma garota de 13 anos foi estuprada por cinco homens – um deles um adolescente de 16 anos – em Ocauçu (SP) e a agressão, gravada em vídeo, corre na internet. Em Marília, o diretor-geral de um colégio religioso é acusado de se fazer passar por uma adolescente de 15 anos e induzir uma menina de 12 anos a tirar a roupa e expor seu corpo diante de uma webcam. São notícias da semana que passou. Impressiona constatar que uma Nação que está entre as dez economias do Planeta, que conta com milhares de leis e uma miríade de organizações governamentais, não consegue proteger de maneira adequada suas crianças e adolescentes. Atraídos pelo gatilho da violência e da devassidão, que as armas de exércitos piratas-tecnológicos lhes proporcionam, e por falta de controle, os contingentes jovens são os primeiros a se contaminar com o sangue da banalização.

Quinquilharias e joguinhos que simulam as mais bestiais aberrações ocupam o centro de suas consciências. Quanto mais choro de vítimas nuas no jogo Rapelay, mais urros de vitória.
“Não há povo que não tenha sua crueldade particular”, já alertava, no passado, o filósofo Montesquieu.

* Gaudêncio Torquato, jornalista, é professor titular da USP e consultor político

3 de abril de 2009

UMA CARTILHA DE CIDADANIA

Sávia Diniz *

Há poucos dias deixei de ser pobre. Sem que houvesse qualquer acréscimo nos meus rendimentos bancários, ocorresse algum milagre espiritual ou econômico, ou tenha eu estreitado laços de amizade com alguma empreiteira budista. O fato é que, agora, sou uma “cidadã em situação de vulnerabilidade sócio-econômica”, de acordo com as regras do dicionário politicamente correto. Considerei a expressão de criativa sutileza, não fosse o fato de que continuei me sentindo pobre. Refinada, mas ainda em infeliz situação financeira.

Talvez aí more o perigo. Os termos politicamente corretos só atingem o objetivo de tratar as pessoas com respeito e honestidade, independentemente de sua aparência física, credo, opiniões e filosofias de vida, quando vêm acompanhados de uma política de conscientização dos direitos alheios, de educação e princípios éticos.

O que vemos atualmente se resume a um desfile de verniz gramatical, que mal esconde na fala macia os olhos de desdém ou de reprovação. Obviamente, a má vontade social em continuar praticando as boas maneiras de fachada não desabona as iniciativas de particulares, associações e entidades que persistem na sua implementação, dentro dos limites do bom senso.

E digo mais, ser politicamente correto é uma postura de vida que vai além da superfície, estabelecendo uma relação de coerência entre o que se pensa, fala e faz entre quatro paredes ou num palanque. Pode parecer filosofia para alguns ou conversa fiada para outros; entretanto esse tipo de comportamento nos dá a credibilidade para cobrar a mesma atitude de quem quer que seja, colocando abaixo os discursos vazios ou a discreta hipocrisia.

Deveríamos começar intimando os nossos parlamentares ao cumprimento das tão polêmicas e urgentes reformas políticas, judiciárias, orçamentárias, eleitorais e previdenciárias; que estancariam a hemorragia que leva para o ralo o dinheiro, o suor, os direitos e os sonhos dos contribuintes.

Nestas propostas de mudança encontramos as ferramentas concretas para cobrar de nossos representantes o atendimento das necessidades públicas, ao invés das escusas e secretas. Quem sabe, uma justiça que algeme os criminosos e tenha instrumentos e recursos legais para mantê-los encarcerados. Ou será que somente socialites norte-americanas são condenadas e cumprem pena por dirigirem embriagadas?

Com mais boa-vontade, instituir uma previdência com valores de contribuição compatíveis com as novas expectativas de longevidade dos brasileiros, sem perder de vista os abismos sociais que ainda requerem o amparo de muitos e a cobrança inapelável de tantos outros.

Igualmente que se faz necessário fechar a torneira do dinheiro público, moeda de troca entre empresas privadas, lobistas e comissões de raposas astutas que há tempos levam mocinhos e mocinhas não tão ingênuas pelo bico. Levando a cabo esse e tantos outros absurdos que acorrentam o Brasil a uma taxa de crescimento insignificante, enquanto as demais nações emergentes seguem na pista dupla em alta velocidade.

Também nos autoriza a exigir - dos juízes especialistas na venda de liminares, dos políticos que barganham emendas em bancas de feiras, dos farmacêuticos, médicos, advogados e quaisquer outros profissionais que pratiquem desde pequenos ilícitos até atos que nos causem verdadeiro asco e revolta - um pouco mais de decência e bons modos.

Sobretudo, fica a responsabilidade de não nos calarmos perante as injustiças e os erros, levando a nossa repulsa às ruas, aos meios de comunicação (e que estes nunca sejam silenciados), aos tribunais e às urnas.

O caminho para o pleno exercício da cidadania e a conquista da dignidade é longo. Porém de antemão já sabemos que, embora a ignorância e o oportunismo estejam arraigados nos maus costumes de nosso país, uma nova perspectiva de valores positivos se insinua corajosamente. É só o começo. Mas vale a pena para aqueles que ainda acreditam que a pior pobreza é a de espírito.

* Sávia Diniz é historiadora. Fomos colegas na UCG, quando eu terminava meu curso de Filosofia.

11 de fevereiro de 2009

O IMPÉRIO DO CONSUMO - 7ª e ÚLTIMA PARTE

Eduardo Galeano

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota assim como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem pausa, no mercado. Mas, para qual outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar na historinha de que Deus vendeu o planeta para umas poucas empresas porque, estando de mau humor, decidiu privatizar o universo? A sociedade de consumo é uma armadilha para pegar bobos.

Aqueles que comandam o jogo fazem de conta que não sabem disso, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada, necessariamente, para garantir a existência da pouca Natureza que nos resta. A injustiça social não é um erro por corrigir, nem um defeito por superar: é uma necessidade essencial. Não existe Natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.

10 de fevereiro de 2009

IMPÉRIO DO CONSUMO - 6ª PARTE

Eduardo Galeano

Os terminais de ônibus e as estações de trens, que até pouco tempo atrás eram espaços de encontro entre pessoas, estão se transformando, agora, em espaços de exibição comercial. O shopping center, o centro comercial, vitrine de todas as vitrines, impõe sua presença esmagadora. As multidões concorrem, em peregrinação, a esse templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora é submetida ao bombardeio da oferta incessante e extenuante. A multidão, que sobe e desce pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago; e para ver e ouvir não é preciso pagar passagem. Os turistas vindos das cidades do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas benesses da felicidade moderna, posam para a foto, aos pés das marcas internacionais mais famosas, tal e como antes posavam aos pés da estátua do herói na praça.

Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos vão ao center, ao shopping center, como antes iam até o centro. O tradicional passeio do fim-de-semana até o centro da cidade tende a ser substituído pela excursão até esses centros urbanos. De banho tomado, arrumados e penteados, vestidos com suas melhores galas, os visitantes vêm para uma festa à qual não foram convidados, mas podem olhar tudo. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.

A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo à descartabilidade midiática. Tudo muda no ritmo vertiginoso da moda, colocada a serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje, quando o único que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durar, são tão voláteis quanto o capital que as financia e o trabalho que as gera. O dinheiro voa na velocidade da luz: ontem estava lá, hoje está aqui, amanhã quem sabe onde, e todo trabalhador é um desempregado em potencial.

Paradoxalmente, os shoppings centers, reinos da fugacidade, oferecem a mais bem-sucedida ilusão de segurança. Eles resistem fora do tempo, sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, além das turbulências da perigosa realidade do mundo.

9 de fevereiro de 2009

O IMPÉRIO DO CONSUMO - 5ª PARTE

Eduardo Galeano

O criminologista Anthony Platt observou que os delitos das ruas não são fruto somente da extrema pobreza. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social pelo sucesso, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Eu sempre ouvi dizer que o dinheiro não traz felicidade; mas qualquer pobre que assista televisão tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro traz algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.

Segundo o historiador Eric Hobsbawm, o século XX marcou o fim de sete mil anos de vida humana centrada na agricultura, desde que apareceram os primeiros cultivos, no final do paleolítico. A população mundial torna-se urbana, os camponeses tornam-se cidadãos. Na América Latina, temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo, e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação e pela erosão das suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles acreditam que Deus está em todas as partes, mas por experiência própria sabem que atende nos grandes centros urbanos.

As cidades prometem trabalho, prosperidade, um futuro para os filhos. Nos campos, os esperadores olham a vida passar, e morrem bocejando; nas cidades, a vida acontece e chama. Amontoados em cortiços, a primeira coisa que os recém-chegados descobrem é que o trabalho falta e os braços sobram, que nada é de graça e que os artigos de luxo mais caros são o ar e o silêncio.

Enquanto o século XIV nascia, o padre Giordano da Rivalto pronunciou, em Florença, um elogio das cidades. Disse que as cidades cresciam “porque as pessoas sentem gosto em juntar-se”. Juntar-se, encontrar-se. Mas, quem encontra com quem? A esperança encontra-se com a realidade? O desejo encontra-se com o mundo? E as pessoas, encontram-se com as pessoas? Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente encontra-se com as coisas?

O mundo inteiro tende a transformar-se em uma grande tela de televisão, na qual as coisas se olham, mas não se tocam. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos.

8 de fevereiro de 2009

O IMPÉRIO DO CONSUMO - 4ª PARTE

Eduardo Galeano

As massas consumidoras recebem ordens em um idioma universal: a publicidade conseguiu aquilo que o esperanto quis e não pôde.

Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que a televisão transmite. No último quarto de século, os gastos em propaganda dobraram no mundo todo. Graças a isso, as crianças pobres bebem cada vez mais Coca-Cola e cada vez menos leite e o tempo de lazer vai se tornando tempo de consumo obrigatório. Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisão, e a televisão está com a palavra. Comprado em prestações, esse animalzinho é uma prova da vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos.

Pobres e ricos conhecem, assim, as qualidades dos automóveis do último modelo, e pobres e ricos ficam sabendo das vantajosas taxas de juros que tal ou qual banco oferece. Os especialistas sabem transformar as mercadorias em mágicos conjuntos contra a solidão. As coisas possuem atributos humanos: acariciam, fazem companhia, compreendem, ajudam, o perfume te beija e o carro é o amigo que nunca falha. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados.

Os buracos no peito são preenchidos enchendo-os de coisas, ou sonhando com fazer isso. E as coisas não só podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascensão social, salvo-condutos para atravessar as alfândegas da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas escolhem você e salvam você do anonimato das multidões. A publicidade não informa sobre o produto que vende, ou faz isso muito raramente. Isso é o que menos importa. Sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias. Comprando este creme de barbear, você quer se transformar em quem?

7 de fevereiro de 2009

O IMPÉRIO DO CONSUMO - 3ª PARTE

Eduardo Galeano

O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde quantidade com qualidade, confunde gordura com boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a “obesidade mórbida” aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou 40% nos últimos dezesseis anos, segundo pesquisa recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado. O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free, tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar desce do carro só para trabalhar e para assistir televisão. Sentado na frente da telinha, passa quatro horas por dia devorando comida plástica.

Vence o lixo fantasiado de comida: essa indústria está conquistando os paladares do mundo e está demolindo as tradições da cozinha local. Os costumes do bem-comer, que vêm de longe, contam, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade e constituem um patrimônio coletivo que, de algum modo, está nos fogões de todos e não apenas na mesa dos ricos. Essas tradições, esses sinais de identidade cultural, essas festas da vida, estão sendo esmagadas, de modo fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida em escala mundial, obra do McDonald’s, do Burger King e de outras fábricas, viola com sucesso o direito à autodeterminação da cozinha: direito sagrado, porque na boca a alma tem uma das suas portas.

6 de fevereiro de 2009

O IMPÉRIO DO CONSUMO - 2ª PARTE

Eduardo Galeano

Dize-me quanto consomes e te direi quanto vales.

Esta civilização não deixa as flores dormirem, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores estão expostas à luz contínua, para fazer com que cresçam mais rapidamente. Nas fábricas de ovos, a noite também está proibida para as galinhas. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar.

Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica. Os EUA consomem metade dos calmantes, ansiolíticos e demais drogas químicas que são vendidas legalmente no mundo; e mais da metade das drogas proibidas que são vendidas ilegalmente – o que não é uma coisinha à toa, quando se leva em conta que os EUA contam com apenas cinco por cento da população mundial.

Invisível violência do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade, e a uniformidade é que manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todas as partes suas pautas obrigatórias de consumo. Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora do que qualquer ditadura do partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

5 de fevereiro de 2009

O IMPÉRIO DO CONSUMO - 1ª PARTE

Eduardo Galeano

A cultura de consumo faz muito barulho, assim como o tambor, porque está vazia; e, na hora da verdade, quando o estrondo cessa e acaba a festa, o bêbado acorda, sozinho, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos quebrados que deve pagar.

A expansão da demanda se choca com as fronteiras impostas pelo mesmo sistema que a gera. O sistema precisa de mercados cada vez mais abertos e mais amplos tanto quanto os pulmões precisam de ar e, ao mesmo tempo, requer que estejam no chão, como estão, os preços das matérias-primas e da força de trabalho humana.

O sistema fala em nome de todos, dirige a todos suas imperiosas ordens de consumo, entre todos espalha a febre compradora; mas não tem jeito: para quase todo o mundo esta aventura começa e termina na telinha da TV.

A maioria, que contrai dívidas para ter coisas, termina tendo apenas dívidas para pagar suas dívidas que geram novas dívidas, e acaba consumindo fantasias que, às vezes, materializa cometendo delitos. O direito ao desperdício, privilégio de poucos, afirma ser a liberdade de todos.

29 de janeiro de 2009

2020

Carlos Edu Bernardes

- Filho, acorda! Papai já está indo para a nossa Santa Empresa. Coloque sua roupa com colete à prova de gente e venha ver como o papai ensinou os empregados a remover os cadáveres da porta da garagem.
- Já vou, pai...
- Você viu meu carro novo?
- Vi. Que beleza, hein! Ele já vem equipado com blindagem e armas de grosso calibre?
- Claro! Ou você pensa que a evolução humana não cria maravilhas a cada dia?
- É... Mas, pai. Ontem à noite você disse que ia me levar hoje para conhecer uma árvore.
- Sim, mas é mais tarde, depois da sua aula de 'Como Ficar Biliardário em 10 Anos' pela internet. Mesmo porque o jatinho ainda não saiu da revisão.
- Tá... Outra coisa, pai. Você disse também que antigamente existia uma tal de escola, faculdade, onde as pessoas iam estudar?
- Sim, mas isso é coisa do passado. Quem precisa conviver com todo tipo de gente se hoje podemos aprender tudo que é necessário numa casa tão bem aparelhada como a nossa?
- Sei.
- Além do mais, é não dando chances ao outro de entender nossas ideias é que vamos dominar cada vez mais a arte do negócio e do mercado. Lembre-se eu estou preparando você para ser um dos dominadores do mercado, como eu.
- Ok.
- Mas anda logo, pois ontem eu tive que disparar muitas balas para limpar a frente da casa matando aqueles pedintes odiosos. Anda, filho! Tempo é dinheiro! Você sabe muito bem disso, pois já tem seis anos!

15 de janeiro de 2009

CABUM!

Carlos Edu Bernardes

Hoje, digitando um texto no word (aquela beleza de software...) eu, sem querer, enfiei os dedos entre as teclas e, imediatamente, o que estava sendo digitado em português (novamente engatinhando com a reforma ortográfica) passou para o grego, ou algo parecido - não me espantaria se fosse uma linguagem extraterrestre. Apesar disso já haver acontecido outras vezes e com outros resultados até risíveis, dessa vez um calafrio me passou pela espinha: bom, com a quantidade de máquinas interligadas no mundo todo através da internet, com conexões vampiras para tudo quanto é lado (graças aos fdps dos hackers nocivos) quem pode garantir que alguém lá no Pentágono ou na ilha de Gólgota digitando e enfiando o dedão num control qualquer não pode acionar o disparo de uma ogiva nuclear por aí ou ocasionar um blackout no Ceilão? Eu hein! É, galera, o caos tem tantas vestimentas que às vezes nem sei se sou eu mesmo quem está digitando essas linhas... Ôpa, $%$##@@#%&&*())(*$$%$#@@!...

6 de janeiro de 2009

O NEGATIVO DE JACK

Carlos Edu Bernardes

Chegou em casa e lavou os óculos com muita raiva: na verdade, queria esfregar com força os próprios olhos. Queria ser um daqueles raspadores de outdoors para apagar com uma espátula raspenta todo o tipo de imagem dela que ainda estava gravada nas suas retinas. Esfregou-os com álcool também. Depois sentou-se na sala e pegou papel e caneta. Escreveu: Marina, Marina, Marina. Destacou o papel do bloco e, pacientemente, rasgou-o em mil pedacinhos, tendo o cuidado de separar cada letra num pequeno pedaço: esquartejá-la para que ela desapareça mais facilmente no vento louco do verão.

Pegou a caixa de fotografias e separou tranqüilamente cada uma de suas últimas namoradas. Um calafrio subiu-lhe pela espinha: lembrou-se de que as melhores fotos de Marina estavam com um conhecido, artista plástico, para montagem de um painel a ser colocado na sala! Vestiu um casaco e entrou no carro, zarpando a mil por hora. O sujeito não estava. Quebrou a porta e entrou no ateliê. Viu o painel na parede oposta: lindo! Como Marina estava bela! Todas as fotos canalizando-se numa passarela de Marinas que deslizavam na frente dos seus olhos.

Não sentiu a primeira mordida dos Dobermans. Nem teve tempo de reação para escapar da segunda. Morreu dilacerado, rasgado em mil pedaços, bem na frente de uma Marina linda... e inteira.

3 de janeiro de 2009

NÃO ME TIRES O QUE NÃO PODES ME DAR

Carlos Edu Bernardes

Diógenes, o cínico (404-323a.C.).

Diógenes é assinalado, em muitas histórias da filosofia, como o filósofo que desprezou ostensivamente os poderosos e as convenções sociais, nisso nóis inté parece. Nasceu em Sínope, que não é nada perto de Monte Alegre de Minas. Foi discípulo de Antístenes (c.444-365 a.C.), fundador da filosofia cínica e eu discípulo do vôvô Fenelon Bernardes (1889-1992), fundador da fivelada lombálgica.

Como todos os cínicos Diógenes desprezava as idéias gerais e as convenções sociais, negando a possibilidade da própria ciência, coisica que num faço nem! Ficar sem ouvir Beatles? Humpf!

Diógenes ficou associado a diversos episódios que exprimem as suas idéias éticas, as únicas a que dava verdadeira importância. A única forma de vida aceitável seria a conforme à natureza, tudo o mais não passava de vento, ou seja, peido.

Conta-se que Alexandre da Macedônia, o grande imperador da antiguidade, ao encontrá-lo lhe teria perguntado o que mais desejava. Acontece que devido à posição em que se encontrava, Alexandre fazia-lhe sombra. Diógenes, então olhando para o sol afirmou: "Não me tires o que não me podes dar!".

Levando ao extremo esta atitude de desprezo pelas convenções sociais, Diógenes, tinha como casa um barril e vestia-se de trapos. Perambulava pela cidade com uma lamparina acesa, mesmo de dia, afirmando a quem o interrogava que procurava "um verdadeiro homem". Aquele que vivia de acordo com a natureza.

Já Fenelon percorria a cidade com um barril vazio a procura de mais cachaça. Quando não encontrava tomava Biotônico Fontoura misturado em álcool e metia bala de cartucheira para todo lado, danificando a natureza e as orelhas de transeuntes desavisados
.

Completemos com James Geary, que nos diz: "Nunca confie em um animal; não importa quantas patas ele tenha”

10 de dezembro de 2008

SOCIEDADE EM DECADÊNCIA

Haroldo P. Barboza *

A sucessão de escândalos nacionais envolvendo figuras deprimentes da nossa política forma uma pirâmide de lama fétida que está corroendo as estruturas das entidades ora desacreditadas.

Principalmente as câmaras públicas seguidas de perto pelos palácios regionais da Justiça. E atropelando por fora, chegam os sindicatos que outrora defenderam os interesses dos trabalhadores e que agora defendem os empresários. O desrespeito está se alastrando sem controle entre os jovens que passam a acreditar que está tudo liberado e a desesperança de seus responsáveis está aumentando por perceberem que o futuro de seus herdeiros se mostra mais horrendo do que o suportável apesar de algumas tentativas de colocá-los num bom caminho.

As famílias que se acomodaram enfrentam uma luta desigual contra os amigos de esquina que distribuem drogas entre seus herdeiros largados sob a vigilância de games explosivos. Por esta tendência, jovens agridem índios, domésticas, lésbicas, gays e assemelhados. Fumam drogas a céu aberto, estupram menores e executam corridas noturnas de carros nas ruas das cidades na certeza de que nada acontecerá, pois a Justiça está sucateada e é fácil de ser "amaciada". Basta-nos ver com que facilidade os perigosos detentos usam celulares em suas celas nas prisões, como se fossem seus escritórios.

Adolescentes que queimam índios e afogam colegas nas piscinas estão livres e alguns já montaram consultórios! Só falta descobrirmos dentro de quantos anos (até quando a mídia pesada puder iludir os esfomeados) a convulsão social violenta eclodirá em territórios sacrificados penalizando milhares de inocentes arrastados para uma luta que não desejaram e não terão recursos para conter. Nem salvar seus herdeiros desprotegidos.

E mesmo embutido neste cenário de horror, certamente a tv lançará um "show da realidade" dentro de algum prédio abrigando habitantes desesperados pelas balas cruzando sobre suas cabeças disparadas por meia dúzia de meliantes que dominam as favelas inchadas que agora contornam os luxuosos condomínios. O último sobrevivente receberá um polpudo prêmio de U$ 1 MI.

Deve ser suficiente para cobrir as despesas com os enterros dos parentes falecidos.
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* Haroldo P. Barboza - Vila Isabel / RJ - Autor do livro: Brinque e cresça feliz

9 de dezembro de 2008

RIMAR RIMEI

Carlos Edu Bernardes

pode parecer dissonante
ou sem cabimento
dizer que a rima num poema
preferencialmente
só agrada ao declamante

a mensagem por não ter rima
não perde esteticamente
a plasticidade do corpo que a circunda
e se perder quero deixar-me levar por cima
ao gozo profundo nessa sensação dela oriunda
e esperar a título de gozação
na beatitude dos saciados que me fascina
uma negativa descrente da inspiração
geométrica quadrada sem bunda

o escritor literalmente ofendido
e que isso não confirma
atesta a inflexibilidade do seu estilo
pois é tentando ser milimetricamente ouvido
que ele não consegue dizer poeticamente
aquilo