
se você achar que a realidade é simplesmente aquilo que vê, escuta e aceita; se você não se interessar por Filosofia e não quiser ler sobre assuntos gerais e suas implicações, atitudes inteligentes, Mozart, cinema, Einstein, literatura, música e principalmente críticas a gente que resolveu jogar fora o cérebro, um conselho: aqui não tem nada para você! porém, se mesmo assim você quiser ler, e exercitar seu pensamento, será um sinal de que a esperança é mesmo, felizmente, teimosa. Bem-vindo!
Carlos Edu Bernardes
1) Sempre que chego em casa minha mulher está assistindo ao seu programa religioso favorito: o Shoptime.
Carlos Edu Bernardes
Veja pela charge acima a realidade dos dias. A maioria das pessoas (mesmo onde Cristo 'era' louvado) já quase não conhece mais esse Homem. Não sou religioso, mas a figura de Cristo sempre remeteu o ser humano para o lado bom da humanidade - coisa questionável hoje em dia esse tal de 'lado bom'.
Carlos Edu Bernardes
Gaudêncio Torquato *
Há poucos dias deixei de ser pobre. Sem que houvesse qualquer acréscimo nos meus rendimentos bancários, ocorresse algum milagre espiritual ou econômico, ou tenha eu estreitado laços de amizade com alguma empreiteira budista. O fato é que, agora, sou uma “cidadã em situação de vulnerabilidade sócio-econômica”, de acordo com as regras do dicionário politicamente correto. Considerei a expressão de criativa sutileza, não fosse o fato de que continuei me sentindo pobre. Refinada, mas ainda em infeliz situação financeira.
Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota assim como se esgotam, pouco depois de nascer, as imagens disparadas pela metralhadora da televisão e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem pausa, no mercado. Mas, para qual outro mundo vamos nos mudar? Estamos todos obrigados a acreditar na historinha de que Deus vendeu o planeta para umas poucas empresas porque, estando de mau humor, decidiu privatizar o universo? A sociedade de consumo é uma armadilha para pegar bobos.
Os terminais de ônibus e as estações de trens, que até pouco tempo atrás eram espaços de encontro entre pessoas, estão se transformando, agora, em espaços de exibição comercial. O shopping center, o centro comercial, vitrine de todas as vitrines, impõe sua presença esmagadora. As multidões concorrem, em peregrinação, a esse templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora é submetida ao bombardeio da oferta incessante e extenuante. A multidão, que sobe e desce pelas escadas mecânicas, viaja pelo mundo: os manequins vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago; e para ver e ouvir não é preciso pagar passagem. Os turistas vindos das cidades do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas benesses da felicidade moderna, posam para a foto, aos pés das marcas internacionais mais famosas, tal e como antes posavam aos pés da estátua do herói na praça.
O criminologista Anthony Platt observou que os delitos das ruas não são fruto somente da extrema pobreza. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social pelo sucesso, diz Platt, incide decisivamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Eu sempre ouvi dizer que o dinheiro não traz felicidade; mas qualquer pobre que assista televisão tem motivos de sobra para acreditar que o dinheiro traz algo tão parecido que a diferença é assunto para especialistas.
As massas consumidoras recebem ordens em um idioma universal: a publicidade conseguiu aquilo que o esperanto quis e não pôde.
O consumidor exemplar é o homem quieto. Esta civilização, que confunde quantidade com qualidade, confunde gordura com boa alimentação. Segundo a revista científica The Lancet, na última década a “obesidade mórbida” aumentou quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre as crianças norte-americanas, a obesidade aumentou 40% nos últimos dezesseis anos, segundo pesquisa recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado. O país que inventou as comidas e bebidas light, os diet food e os alimentos fat free, tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar desce do carro só para trabalhar e para assistir televisão. Sentado na frente da telinha, passa quatro horas por dia devorando comida plástica.
Dize-me quanto consomes e te direi quanto vales.
A cultura de consumo faz muito barulho, assim como o tambor, porque está vazia; e, na hora da verdade, quando o estrondo cessa e acaba a festa, o bêbado acorda, sozinho, acompanhado pela sua sombra e pelos pratos quebrados que deve pagar.
- Filho, acorda! Papai já está indo para a nossa Santa Empresa. Coloque sua roupa com colete à prova de gente e venha ver como o papai ensinou os empregados a remover os cadáveres da porta da garagem.
Hoje, digitando um texto no word (aquela beleza de software...) eu, sem querer, enfiei os dedos entre as teclas e, imediatamente, o que estava sendo digitado em português (novamente engatinhando com a reforma ortográfica) passou para o grego, ou algo parecido - não me espantaria se fosse uma linguagem extraterrestre. Apesar disso já haver acontecido outras vezes e com outros resultados até risíveis, dessa vez um calafrio me passou pela espinha: bom, com a quantidade de máquinas interligadas no mundo todo através da internet, com conexões vampiras para tudo quanto é lado (graças aos fdps dos hackers nocivos) quem pode garantir que alguém lá no Pentágono ou na ilha de Gólgota digitando e enfiando o dedão num control qualquer não pode acionar o disparo de uma ogiva nuclear por aí ou ocasionar um blackout no Ceilão? Eu hein! É, galera, o caos tem tantas vestimentas que às vezes nem sei se sou eu mesmo quem está digitando essas linhas... Ôpa, $%$##@@#%&&*())(*$$%$#@@!...
Chegou em casa e lavou os óculos com muita raiva: na verdade, queria esfregar com força os próprios olhos. Queria ser um daqueles raspadores de outdoors para apagar com uma espátula raspenta todo o tipo de imagem dela que ainda estava gravada nas suas retinas. Esfregou-os com álcool também. Depois sentou-se na sala e pegou papel e caneta. Escreveu: Marina, Marina, Marina. Destacou o papel do bloco e, pacientemente, rasgou-o em mil pedacinhos, tendo o cuidado de separar cada letra num pequeno pedaço: esquartejá-la para que ela desapareça mais facilmente no vento louco do verão.
Diógenes, o cínico (404-323a.C.).
pode parecer dissonante